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COMPORTAMENTO                             Montserrat Martins
 

Nada é mais forte
 
Levei meu filho para conhecer as árvores centenárias da Vila
Mimosa, em Canoas, área de Mata Atlântica com espécies ameaçadas de
extinção, inclusive o Pau-Brasil. Uma liminar que protegia a área foi
suspensa e as máquinas de uma construtora começaram a "limpar" o terreno,
desfigurando o ambiente, embora as árvores centenárias ainda estejam de pé.
 
Não é preciso ser biólogo para compreender que a construção de
prédios em meio àquelas árvores significa a destruição daquele 'habitat' com
38 espécies de árvores nativas e 16 de aves, muitas destas também ameaçadas
de extinção porque aquele era seu local de repouso no corredor até o Delta
do Jacuí. Também não é preciso ser ambientalista para entender a perda da
qualidade de vida na Região Metropolitana, por devastações destas. As
enchentes urbanas, por exemplo, também tem a ver com a diminuição dos locais
para infiltração das águas, pela substituição das áreas naturais por
concreto e asfalto. Assim como alterações do clima da região, decorrentes
dos mesmos fatores.
 
Dizem que nada é mais poderoso que o dinheiro e por isso a
destruição é inevitável. Mas diziam isso da escravidão e do colonialismo há
pouco mais de um século e até a metade do século XX era moda matar índios
nos filmes de faroeste, época em que nem se falava em preservar nada. Hoje,
felizmente, são filmes como Avatar que nos envolvem mais - com ambientes, a
propósito, que só existem em alguns locais como a Vila Mimosa.
 
Se hoje ainda prevalecem formas predatórias de ganhar dinheiro,
está na hora de avançarmos para outro modelo de civilização que inclua a
consciência do valor inestimável de alguns tesouros ambientais para nossas
próprias vidas. A ponto de que uma construtora que adquira uma área
daquelas pense em investir nela como um Jardim Botânico e promover o
ecoturismo. Mesmo como negócio, destruir regiões de Mata Atlântica é como
"matar a galinha dos ovos de ouro" que nos sustenta. E a história da
humanidade está repleta de lições de evolução em que podemos aprender que,
como já disse Vitor Hugo e Marina tem repetido, "nada é mais forte que uma
idéia cujo tempo chegou".
 
 

O "jeitinho do bem"
 
 
 
"Eu não sou contra a burocracia. A burocracia é que é contra mim"
 
                                                                             
      (Giba Giba, cantor)
 
 
 
            Numa das licenças-saúde do Paulo Sant'Ana, foi lá em 30 de julho 
de 2009, o Léo Gerchmann foi interino na coluna dele e lançou a tese "O 
jeitinho do bem". A  idéia do Léo é a seguinte: "O malfadado jeitinho 
brasileiro é resolver as coisas com criatividade, com malícia. Somos um povo 
afeito a maleabilidade quando a lei requer uma interpretação mais sensível. 
E isso é necessariamente ruim ?". Cita   como exemplo de burocratismo um 
"azulzinho" (fiscal de trânsito) que multou um motorista em frente ao 
colégio do filho, porque estava falando ao celular.  Quando o motorista 
argumentou que o carro estava parado, o azulzinho disse que o multava porque 
estava "com o motor ligado" e arrematou: "É a letra fria da lei".
 
            Léo Gerchman sabe que hoje há um senso comum contra o jeitinho 
porque é dele que se valem os políticos corruptos, as CPIs que acabam em 
"pizza" e que os criminosos do "colarinho branco" nunca vão para a cadeia, 
só os "ladrões de galinha", ou seja, estão culpando o "jeitinho" pela 
desigualdade e injustiças sociais. E a culpa seria mesmo do "jeitinho" ou, 
ao contrário, esse é uma cultura criada pelos mais humildes para 
sobreviverem ao poder, criando seus micropoderes paralelos ? Para Gerchmann, 
podemos dizer que há um "jeitinho do bem", "quando se fala em sorrisos 
abertos, hospitalidade e solidariedade, são coisas brasileiras, do bem". E 
cita que em O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro mostra que somos 
multifacetados, das mais diversas etnias, o que resultou numa cultura de 
flexibilidade e de convivência com as diferenças, de relativizar algumas 
delas para não vivermos em guerras permanentes por nossas diferentes 
culturas e valores, nesse "país-continente".  O oposto do jeitinho seriam a 
ética e a lei igual para todos, tão reinvindicadas pelo senso comum no 
momento. O problema é que ainda não sabemos fazer isso sem burocratismo, 
pelo que temos visto por aí.
 
            Quando o governo lançou a campanha contra a fome, uma empresa de 
Caxias quis doar um caminhão para a campanha. Cerca de meio ano depois, 
ainda não havia conseguido doar o caminhão, porque os trâmites legais em 
Brasília ainda não haviam sido concluídos. Os órgãos do governo responsáveis 
por examinar a doação ainda não haviam determinado se o caminhão podia ser 
entregue, esse assunto virou matéria de jornal na época.
 
            Uma história bem simples sobre burocratismo e jeitinho, que nos 
contaram,  aconteceu no interior, onde dois fazendeiros que romperam 
sociedade disputavam na justiça a propriedade da terra. Quando, durante o 
processo judicial, um era considerado dono, nomeava um capataz para dirigir 
os peões ao seu modo. Quando havia uma decisão favorecendo o outro como 
sendo o dono, este mudava de capataz e dava ordens diferentes para este novo 
capataz transmtir aos peões. Como a batalha judicial demorou muitos anos, 
chegou a um ponto em que os dois capatazes - um da confiança de cada 
fazendeiro - resolveram se entender entre si e começaram a orientar os peões 
de acordo com o que era melhor para a lida do campo, sem considerar tanto as 
oscilações de humor e de troca de poder entre os proprietários em conflito 
de poder. E com esse "jeitinho do bem", dizem que a fazenda ficou mais 
produtiva, sem que os donos tivessem ficado sabendo porque.

 

 

Satisfação garantida
 
 
 
Quem resiste a um filme berm feito, por mais previsível que seja o
'happy end'? O cinema tem esse poder sobre nós, é capaz de nos envolver
emocionalmente e, por mais que os intelectuais critiquem o padrão
hollywoodiano, ele mobiliza milhões de espectadores no mundo inteiro e o
próprio "imaginário coletivo", o modo como vemos o mundo. Sim, existe uma
"fórmula do sucesso" e ela é científicamente estabelecida, vale a pena
conhecer os detalhes das técnicas de roteiro, são verdadeiras aulas de
psicologia (como "Teoria e Prática do Roteiro", de David Howard e Edward
Mabley), nos explicam o que as pessoas querem ver numa história e o modo
como as pessoas querem que a história seja contada.
 
Jorge Furtado já resumiu que um filme é a história de "alguém
que quer muito uma coisa, mas que é difícil de conseguir". Tudo começa com o
desejo do protagonista, um desejo que nós também teríamos no lugar dele,
mesmo que seja o de simplesmente sobreviver (como em "2012"). Aí começa a
"psicologia de massas" do cinema, que para fazer sucesso tem de empatizar
com o que desejamos, o que tememos, coisas que nem sempre são tão claras ou
conscientes porque, como já disse Carl Rogers, "o que existe de mais íntimo
e pessoal é o que existe de mais universal".
 
Quando Freud centrou a teoria do inconsciente na sexualidade,
vivia em plena "era vitoriana" na qual o sexo era um tabu. Hoje, de "assunto
proibido" falar de sexo se transformou em "obrigatório". Então, quais são os
tabus de hoje, as polêmicas e dramas da nossa época, que mexem com temores e
esperanças de todos no íntimo, mesmo que não sejam evidentes a todos ? Ter
esperanças no futuro, por exemplo, de que ainda seja possível prevalecerem
valores sociais e ambientais sobre os meros interesses imediatos, é um tema
que está se tornando recorrente nos filmes atuais, como agora aparece na
fábula "Avatar".
 
O cinema explora justamente essas contradições, entre o mundo em
que vivemos e o em que gostaríamos de viver. Se há uma característica comum
aos protagonistas da maioria dos filmes, hoje, é que eles são
anti-convencionais, quebram regras para um "bem maior" que vai além do
"status quo", para que suas histórias prendam nossa atenção. Praticam
valores elevados, "heróicos", mesmo quando mal compreendidos pelos grupos
sociais a que pertencem. Este "heroísmo" do protagonista está em suas
virtudes que se revelam quando enfrenta obstáculos e supera limites,
inclusive das próprias contradições interiores. É o que os junguianos chamam
de "jornada do herói", descrita em "A Jornada do Escritor", de Christopher
Vogler.
 
Por tudo isso, os "megasucessos" do cinema são mais do que
"satisfação garantida", mero entretenimento. Também dizem algo sobre nós
mesmos, como nos sentimos e como gostaríamos de ser. Só são "fórmulas
comerciais" porque mobilizam desejos e necessidades. Como no caso de
"Avatar", agora, que de forma alegórica nos coloca diante dos dilemas atuais
da civilização, em que nossas conquistas tecnológicas se defrontam com a
"tecnologia" de recursos da natureza que ainda não conhecemos tão
profundamente.
 

Desequilíbrio humano
 
 
 
Para o deprimido, decepcionado com a sociedade, dizia o Analista de Bagé: 
"Não te preocupa que eu dou uns telefonemas aí e mudo o mundo". E quando o 
paciente reagia, "mas doutor, isso não é possível", vinha a interpretação 
terapêutica: "Ainda bem que tu te dá conta, bagual !". Os jovens americanos, 
mais otimistas, passaram uns emails e ajudaram a mudar o mundo mesmo, pois 
segundo os analistas políticos a internet foi decisiva na campanha de Obama. 
Sim, é verdade que ele teve apoio inclusive de grandes grupos econômicos na 
eleição, mas o apoio empresarial foi crescendo na proporção da sua 
popularidade pessoal - pois nem seria  bom para a imagem dessas empresas, 
investir num cara impopular.
 
Agora que entrou na moda, finalmente, pensarmos no ambiente como resultado 
das ações humanas, podemos aproveitar esse entendimento para avaliar também 
a sociedade e várias formas de desequilíbrios humanos. Se estamos 
decepcionados com nossas instituições, o que podemos fazer pela 
"despoluição" dos sistemas de representação e delegação de poderes, para 
chegarmos a um "desenvolvimento sustentável" dos próprios seres humanos ?
 
Um outro modismo, mais questionável, é o de livros sobre "mentes perigosas", 
como se os "psicopatas violentos" fossem fruto apenas de uma doença psíquica 
que não tem nada a ver conosco, ou com seus contextos de vida. Há mais de um 
século Freud já explicou o conceito de "introjeção", pelo qual podemos 
compreender como relações humanas deturpadas podem ficar marcadas no nosso 
inconsciente de modo a formar personalidades perturbadas. Sim, existem 
psicopatas violentos e eles são perigosos, temos de aprender a identificar 
sinais de risco para nos protegermos. Mas quem sabe está na hora de nos 
preocuparmos em evitar que se formem novas gerações de seres humanos em 
condições de vida sub-humanas, introjetando as violências que sofrem no 
cotidiano das regiões dominadas pelo tráfico, por exemplo.
 
Se o desequilíbrio ambiental tem sido capaz de mobilizar os jovens para uma 
nova atitude diante da vida, ele pode ser um "catalisador" também de uma 
mudança mais ampla, na qual o desequilíbrio do ambiente humano seja incluído 
em nossa forma de perceber a vida e a sociedade. Porque a mente (psique) e o 
cérebro (orgânico) humanos, tanto quanto quaisquer  sistemas ecológicos, 
também reagem a tudo o que ocorre à sua volta. Pelo menos é assim que 
entendem todas as pessoas e entidades (desde as várias abordagens 
psicoterapêuticas, até as de cunho espiritual)  que tem obtido algum 
resultado na recuperação destas pessoas, que tem sido tratadas como "lixo" 
pela sociedade - mas mesmo que o fossem, porque suas vidas não poderiam ser 
"recicladas" ? Sabendo o quanto custa essa reciclagem, é mais racional 
investir em prevenção (com planejamento familiar, políticas sociais mais 
eficazes e planejamento urbano) dessa violência que já se volta contra nós, 
tanto quanto o desequilíbrio do clima.
 
 
Sua filha gosta
 
 
 
            "Você não gosta de mim, mas sua filha gosta", famoso verso de 
Chico Buarque, se supunha inspirado no então presidente Geisel, porque a 
filha do general, Amalia Lucy, havia se declarado fâ do compositor.  Mas 
Chico contou em entrevista que na verdade fez esses versos pensando nos 
policiais que iam apanhá-lo em casa para prestar depoimento e no elevador 
pediam um autógrafo para a filha. Seja como for, a ditadura obrigava as 
oposições a serem inteligentes e sutis, assim como naquele outro verso 
famoso do Chico, "Pai, afasta de mim esse cálice".
 
            Lembrei dessas histórias quando assisti surpreso, na formatura 
de uma turma de Pedagogia, as formandas dançando funk no palco. Quando 
desabafei minha sensação de estranheza para o meu filho de 15 anos (que é um 
cara tranquilo e de bons valores), explicando que eu achava "muita 
exposição" a dança funk, ele me respondeu com um argumento definitivo: "Eu 
gosto".
 
            Pensando bem, se as professoras não soubessem dançar como iam 
ter ânimo para acompanhar a energia dessa geração de alunos criada na nossa 
"era do espetáculo", com mais tempo em frente a TV, internet e videogames 
que conversando com os próprios pais ? Lembrei do mais sensacional professor 
que tivemos no colégio onde estudei, que além de profe era o técnico do time 
de futebol. Pode haver algo mais inesquecível que um adulto que é parceiro 
dos jovens no que eles mais gostam, no que lhes dá mais alegria e diversão ? 
É claro que dava muito mais vontade de prestar atenção nas aulas dele que em 
qualquer outra, ele não impunha sua autoridade, a conquistava, junto com a 
admiração e o respeito de todos nós.
 
            Minha mãe já desabafou que nasceu na geração errada, porque 
quando pequena tinha de obedecer aos pais e quando se tornou adulta o mundo 
tinha mudado tanto que agora os filhos é que mandam nos pais. Mas se for 
verdade que vivemos numa "ditadura dos filhos", como tem gente dizendo, 
ainda nos resta a criatividade, como a do Chico na época da ditadura. 
Afinal, "a mente é como um paraquedas, só funciona quando está aberta"  como 
já disse James Dewar, o inventor da garrafa térmica.
 
            Mesmo as mais sensatas recomendações aos filhos, que costumam 
ser repudiadas como "moralistas", podem ser expressadas de modo divertido. 
Como uma paródia que tem sido usada (em outros estados) na campanha contra o 
cigarro, com atores satíricos cantando a música "We are the world" com a 
letra traduzida para  "me arde o oio, me arde o ouvido, você vai pitando e o 
mundo vai ficando bem mais poluído" - e por aí vai.  Uma idéia que pode 
tornar mais popular ainda a campanha contra o crack, que talvez você ache 
uma idéia meio bobinha ou infantil, mas afinal o maior sucesso de uma 
campanha não é quando agrada ao adulto, é quando sua filha gosta.
 
 

 

Gigante pela própria natureza
 
 
 
            Quem assiste novelas já viu milhares de vezes as belezas 
naturais do Rio de Janeiro, a Amazônia e as Cataratas do Iguaçú são 
mostradas em documentários e, curiosamente, é raro que o cânion do 
Itaimbezinho apareça em algum programa. O Parque Nacional dos Aparados da 
Serra poderia ser incluído entre as "Sete Maravilhas do Brasil", de tão 
imponente a beleza de seus paredões de pedra, mas eles seguem quase 
inexplorados, turisticamente.
 
            Será bom ou ruim estar fora da mídia um patrimônio natural tão 
impressionante ? Ao mesmo tempo em que parece um desperdício de potencial 
turístico, por outro lado a verdade é que os lugares mais badalados passam a 
sofrer formas de degradação com a frequentação massificada. Quem conheceu as 
praias de Santa Catarina décadas atrás lembra do quanto suas águas eram 
limpas e vê, hoje, restos de lixo e  materiais  plásticos espalhados pela 
vegetação e à beira mar. É uma questão cultural em que ainda estamos muito 
atrasados, embora já tenha sido pior, pois agora já há mais vozes pela 
preservação do ambiente.
 
            A situação atual da região dos cânions gaúchos é praticamente um 
"desconvite" a contemplar sua beleza. A estrada de terra até o Itaimbezinho 
é de 18 km de buracos e a que leva ao cânion Fortaleza é de 22 km piores 
ainda. A própria estrada asfaltada entre São Francisco de Paula e Cambará do 
Sul tem verdadeiros "buracos assassinos", é como se houvesse placas dizendo 
"volte, você não é bem vindo".
 
            Talvez seja melhor, mesmo, que esse "gigante pela própria 
natureza" permaneça "dormindo em berço esplêndido", em Cambará do Sul, sem 
que as hordas de turistas vão lá fazer passeios jogando restos de 
hamburguers e refris ou latas de cervejas pelas janelas dos carros. Pelo 
menos até que se possa fazer investimentos em fiscalização ambiental, 
capazes de exibir paraísos naturais, sem que estes sucumbam à sua exploração 
turística. Mas no dia em que o ecoturismo for coisa séria por aqui, quando 
houver fiscalização ambiental e consciência popular, poderemos criar e 
manter uma estrutura que permita mostrar uma das mais belas vistas que há, 
para turistas do mundo inteiro.
 
O mito do "psicopata mimado"
 
 
 
                "Quer criar um psicopata ?  Faz todas as vontades do teu 
filho." (chavão popular)
 
            "As mudanças acontecem da sociedade para a família, do  sistema 
maior para o menor  e não o contrário." (Salvador Minuchin, terapeuta 
familiar)
 
 
 
Alunos agressivos com professores e colegas, nas escolas, tem gerado debates 
sobre o papel dos pais na educação dos filhos, com ênfase no chavão de que 
jovens violentos são fruto da superproteção.  Analisemos essa tese, à luz 
dos conhecimentos científicos disponíveis.
 
Sim, é verdade que limites são fundamentais no desenvolvimento emocional na 
infância e na adolescência. Mas o efeito mais imediato de um filho ser 
"mimado" não é que ele vá se tornar um psicopata, pois o que a superproteção 
mais produz é o chamado "bebê chorão", alguém que não sabe lidar com o mundo 
real porque foi criado numa "redoma da vidro". Isso é biológico: pesquisas 
com cães comprovaram que os "mimados" não tinham qualquer reação agressiva 
ao corte do rabo, enquanto os maltratados reagiam à simples aproximação das 
pessoas.
 
Pesquisas com adolescentes homicidas, relatadas por J.Necyr, comprovaram que 
a grande maioria provinha de ambientes violentos, tendo sofrido maus tratos 
físicos e psíquicos desde pequenos (de modo análogo aos abusadores que foram 
abusados na infância), muitas vezes pelos próprios pais ou padrastos que, 
por sua vez, com freqüência estavam sob efeito de álcool ou outras drogas. 
Outras pequisas, como a de J.Trindade, apontam também que o abandono paterno 
aumenta em cerca de vinte vezes o risco de atos infracionais.
 
Os jovens que lotam a Fase (antiga Febem) e os presídios não são "filhinhos 
do papai e da mamãe", são provenientes de lares desestruturados e de regiões 
sob controle do tráfico de drogas, às margens dos serviços do Estado. 
Jovens que aterrorizam as escolas já estão fora do controle dos pais há 
muito tempo, quando já não estão na ruas, "adotados" pelos traficantes.
 
Sim, também são observadas mães destes jovens com posturas superprotetoras, 
minimizando os atos dos filhos. Mas isso costuma ser uma atitude 
compensatória ao abandono paterno e uma expressão do sentimento de 
impotência e desespero de mães que também já perderam o controle da 
situação. Nada que se compare ao contexto de pessoas com melhores recursos, 
capazes de proporcionar outras alternativas para os seus filhos rebeldes.
 
Enfim, se o mito do "psicopata mimado" não corresponde à realidade, porque 
ele persiste há décadas ? Talvez porque gostaríamos que fosse verdade, que 
as famílias - mesmo as desestruturadas e ditas "socialmente vulneráveis" - 
fossem capazes de proporcionar limites que o Estado também não tem 
proporcionado.  Mas como assinalam todos os estudiosos dos sistemas sociais, 
incluindo terapeutas familiares como Minuchin, são os costumes sociais que 
mudam as famílias e não o contrário. A  violência é mais que uma questão de 
polícia e também está além do controle familiar, é uma questão 
socioeconômica e cultural que requer ações de Estado e das instituições 
sociais, como é o caso, por exemplo, da  campanha contra o crack.
 
 
Limites reais
 
 
 
            Histórias de superação sempre emocionam, ver alguém superar 
limites que a vida impõe mexe com a gente. Filmes e programas de TV usam 
isso pra conquistar audiência, mas nem sempre funciona, quando o público 
identifica que os limites são falsos, artificiais, quando as pessoas não 
estão lidando com situações onde corram riscos reais. O caso da professora 
de Viamão que repercutiu no Brasil inteiro foi classificado por muitos como 
um exemplo de "limites" num problema que vem se generalizando, as 
dificuldades de educadores e pais com condutas dos alunos.  Mas se esta 
história chamou a atenção pelo aspecto sensacionalista - com a professora 
"exibindo" o aluno em várias salas como mau exemplo - também tem de ser dito 
que não é uma situação que retrate a maioria dos conflitos nessa área, pelo 
menos não os mais perigosos.
 
            O aluno em questão (pelas informações que vieram a público) não 
tem as características dos ditos "anti-sociais", que são desafiadores, 
violentos e sem autocrítica. Ao contrário, esse aluno se submeteu às ordens, 
se sentiu humilhado, envergonhado, deprimido e sem coragem de voltar ao 
colégio. A professora também não teve uma conduta representativa da grande 
maioria de suas colegas, que segue priorizando a didática do diálogo, do 
exemplo, exercitando a paciência e a criatividade diariamente, para educar 
com sabedoria.
 
            O verdadeiro desafio para milhares de mestres no nosso país não 
são os alunos que se submetem, como este de Viamão. Difícil mesmo é lidar 
com jovens que além de não acatar a autoridade, desafiam, ameaçam e 
agridem - dentro e fora da área da escola. Fosse a um destes membros de 
gangue que se tivesse enfrentado, os problemas seriam bem maiores que 
explicar os excessos cometidos, que exorbitam das funções do magistério.
 
            O drama maior com o qual a sociedade está às voltas não é o dos 
limites legais dos nossos atos, mas sim o dos locais onde as "leis" e os 
limites reais são determinados pelo crime organizado, ao invés de pelo 
Estado.  Há muito a ser feito, dentro do previsto na Constituição, como é o 
caso da função das Guardas Municipais de zelar pelo patrimônio público.  Uma 
"história de superação" de uma professora, no filme Mentes Perigosas, mostra 
a protagonista (Michelle Pfeiffer) interagindo com os dramas sociais das 
famílias dos alunos com problemas. O mais próximo desse engajamento, entre 
nós, são os "Círculos Restaurativos", nos quais os conflitos são enfrentados 
com a participação ativa dos envolvidos, dos seus familiares e da própria 
comunidade. Estes círculos (promovidos pela Justiça Restaurativa, em 
implantação no Estado), ao contrário de enfrentamentos físicos ou imposições 
de força, proporcionam desafios emocionais cuja superação tem elevado a 
moral destas comunidades.
"Precursor da liberdade"
 
 
 
Editada por paulistas, a revista nacional de maior circulação já disse que o 
20 de setembro é "a maior comemoração que existe de uma revolução 
derrotada". Entre os próprios gaúchos, há quem diga que foi um movimento 
"das elites" e seus interesses econômicos, como afirmam historiadores 
marxistas. Como se explica, então, que os Farrapos tenham se enraizado e 
persistido na cultura popular, mais de 170 anos depois, a ponto de que agora 
suas comemorações devem entrar inclusive  no calendário turístico do país ?
 
Merece atenção a "psicologia de massas" dos gaúchos e sua identificação com 
uma história tão dramática, carregada de episódios de dolorosa memória (como 
o massacre dos lanceiros) e de polêmicas (sobre quem os teria traído). 
Porque esse movimento sobrevive às suas contradições, na cultura popular ? O 
historiador Alcy Cheuiche foi um dos que se dedicou a compreender o 
significado da epopéia farroupilha no contexto daquela época. Defende, em 
primeiro lugar, que a essência do movimento não era o separatismo e sim o 
espírito republicano, em oposição à monarquia. As provas disso seriam o 
apoio à República Juliana proclamada pelos catarinenses e a recusa a receber 
o apoio  platinos contra as forças do Império brasileiro. O que se 
idealizava seria a formação de repúblicas "Brasil acima", a partir do sul.
 
Nada indica que possa haver consenso entre diferentes historiadores sobre o 
significado de tantos aspectos contraditórios, em que o próprio hino que 
fala no "precursor da liberdade" foi composto por imperiais aprisionados, 
que depois se fixaram no sul mesmo. Os líderes gaúchos daquela época eram 
mais reacionários ou mais evoluídos que o resto do país ? Ou as duas coisas, 
se considerados aspectos diferentes ? Não temos as respostas a estas 
polêmicas, pelo menos de forma consensual. O que permanece a ser melhor 
explorado, no entanto, são os significados subjetivos dessa história - com 
todos os seus conflitos incluídos - que   a fazem se perpetuar ao longo do 
tempo, na identidade psicológica de um povo.
 
 
 
Te amo. Beijão
 
 
 
            Quantas histórias a gente já viu, nos filmes, de pessoas 
passando mensagens "te amo" para a família numa situação dramática, como num 
avião ou navio em risco, ou em uma região atingida por alguma "catástrofe da 
natureza". No cinema, se paga ingresso pelo prazer do final feliz e também 
pela sensação de alívio quando o filme acaba e temos a alegria de não 
estarmos passando por aquilo, na vida real. Por isso, dá a impressão que não 
acontece com a gente e, quando acontece de verdade e bem perto, é muito 
assutador.
 
            O relato de Ana Echevenguá sobre tornados em SC (no blog do 
Instituto Eccos) é a narrativa desse susto, dessa sensação de 'nossa, essas 
coisas podem atingir a gente':  "Na manhã do dia 08 de setembro, fiquei em 
pânico. Minha filha Candice mora ali pertinho, em São José do Cedro - que 
ficou sem energia elétrica, água e telefonia. Nessas horas, como é 
importante o telefone!  Ela só conseguiu se comunicar comigo no final do 
dia, via torpedo: 'Tudo bem com a gente. Os celulares não estão pegando 
desde ontem. Passou um furacão que destruiu muita coisa. Te amo. Beijão'.".
 
            Ela nos conta histórias de pessoas atingidas em várias áreas de 
Santa Catarina, alguns mortos e feridos e milhares de desalojados, sendo que 
"desta vez, os problemas não ficaram restritos ao norte do Estado. Tornados 
em  Guaraciaba, Salto Veloso e Santa Cecília, no extremo oeste... No sul, o 
Rio Araranguá já subiu mais de 2 metros acima do leito e as famílias em 
risco estão sendo retiradas de suas casas".
 
            Por fim, busca as causas da tragédia e cita o engenheiro 
agrônomo Gert Fischer:  "A  falta de cobertura vegetal vem criando 
microclimas novos diante do aquecimento do solo e da atmosfera. O povo 
catarinense ainda está sob os impactos negativos dos desastres ocorridos em 
novembro de 2008. As vítimas ainda não  foram indenizadas. Por mais de 50 
anos, entidades privadas e até governamentais (como o BRDE) financiaram 
negócios que destruíram as Áreas de Proteção Permanente, em flagrante 
desrespeito ao artigo 2º. do Código Florestal Brasileiro". É o desabafo de 
ambientalistas catarinenses sobre a diferença entre os discursos políticos e 
a ausência, na prática, da preservação ambiental. Conclui a Ana que "efeito 
estufa, mudança climática, aquecimento global, não ocorrem somente nas 
geleiras do  Pólo Norte, na África, como mostra o filme do Al Gore" ("Uma 
verdade inconveniente").
 
Quando pessoas chegam ao ponto de se preocupar em mandar mensagens  como o 
"te amo" dessas situações de desespero, é porque estão vivendo o risco de 
que a tragédia os atinja. Alguns já perderam a vida e milhares, as suas 
casas.  Coisas que jamais haviam acontecido até os anos 2000, para 
lembrarmos que esses não eram fenômenos "naturais" nessa região do planeta. 
São situações dramáticas a que o descuido da natureza deixou chegar, mas é 
como se nós só entendessemos isso nos filmes, como se não atingisse as 
nossas vidas.
 
 
 

 
Emergentes
 
 
 
"Você diz que eu sou de quinta categoria, mas o seu filho já
canta comigo", diz uma letra de "Os Racionais". Muitos estilos de música,
que refletem a vivência de grupos sociais de onde brotam, são marginalizados
no início (como o próprio segmento que representam) e depois conquistam
espaço na mídia e na sociedade. Décadas atrás, os sertanejos eram "bregas"
ridicularizados, hoje são fenômenos de venda e popularidade. O funk que
emergiu dos morros cariocas, anos atrás, também se espalhou pelo país e
conquistou espaço entre os jovens. E podemos dizer o mesmo do rap e do
hip-hop, com origens na cultura de periferias urbanas.
 
"Prestígio encoberto" é o fenômeno, explicado por professores de
Linguística e de Antropologia, no qual a linguagem da "contra-cultura" de
grupos rebeldes (contra o "status quo" que os exclui) vai conquistando
primeiro o próprio grupo - como uma forma de auto-afirmação de seu valor -
para depois conquistar o mundo. Quem consegue se expressar através da
música, ou de outras formas de criação cultural ou artística, está
encontrando um caminho saudável, como alternativa para a explosão de
frustrações através da violência gratuita ou do ingresso numa gangue.
 
Em "A maioria desviante", Franco Basaglia chamou a atenção para
o fato de que a maior parte das pessoas não se teria como conquistar o
conceito social de "vencedor", no nosso modelo social competitivo e
consumista. Há uma expressão para "jogar isso na cara", é "loser", adjetivo
com o qual cada americano ridiculariza o outro numa discussão, o chamando
de "perdedor" (deve ser a expressão mais comum nas brigas de filmes, depois
de "fuck you"). Se, algum dia, um grupo social assumisse a identidade
"loser", essa expressão poderia ter seu sentido transformado. A título de
imaginação, por exemplo, poderia representar uma reação contra o consumismo
descartável (nocivo ao ambiente) movido pela ânsia de "status" - que já foi
definido como "comprar uma coisa que você não quer, com um dinheiro que você
não tem, para mostrar para gente que você não gosta, uma pessoa que você não
é". L. F. Veríssimo já disse que "o problema do mundo atual é que tem
vencedores demais, basta ver no trânsito, uns querendo passar na frente dos
outros".
 
É fato que muitas contra-culturas emergentes, que na fase do
"prestígio encoberto" afirmam valores rebeldes, depois se acomodam aos
valores do mercado, desfrutando sua "fatia no bolo" do consumo. Mesmo assim,
não deixam de representar alguma espécie de mudança, pois cada novo grupo
"assimilado" (tal como os territórios anexados ao Império Romano) traz para
o conjunto da sociedade mais diversidade cultural. Não no sentido de que
todos gostem, mas que passam a tolerar de alguma forma.
 
A tolerância com as diferenças, afinal, é em si mesma uma forma
de evolução social. Queiramos ou não, no futuro teremos de conviver com uma
quantidade cada vez maior de pluralidade de culturas. Talvez por isso
também, entre outros fatores, a novela que mostrou os contrastes da cultura
indiana e de suas castas teve tanta audiência entre nós. E na comunidade de
nações também há "emergentes", os paises do "BRIC" (Brasil, Rússia, ìndia e
China). Como diziam os antigos, "quem diria, hein ?".
 

 
Exame de consciência
 
 
 
"Do nada", alguém está bem de saúde e de uma hora para outra
pode pegar uma gripe A - por isso foi tão difícil admitirem publicamente que
ela era mais perigosa que a influenza comum, com receio do pânico na
população. Eu, pessoalmente, passei por essa fase e o momento seguinte
(depois de raciocinar que o pânico só pode prejudicar o sistema imunológico)
foi um exame de consciência. Como quem sofresse um momento de turbulência
num vôo e se desse conta do quanto a vida é frágil.
 
Paulo Sant'Anna escreveu uma crõnica inspirada sobre "A
Consciência" (em maio, acho, antes dos 70 anos dele em junho) em que se
perguntava se era, afinal, uma pessoa boa ou ruim, se havia prejudicado
alguém sem se dar conta, deixado de fazer o que podia ou o que devia ter
feito. Tem quem goste ou não goste do Sant'Anna, mas aquela reflexão foi sem
dúvida sincera, nos dias seguintes ele falou sobre suas doenças, sobre a sua
consciência da finitude dessa vida.
 
"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso",
já disse o Quintana. Mas a gente tem, vai vivendo e fazendo escolhas, erros
e acertos, e responde por eles na nossa consciência. Não é algo que a gente
faça no dia-a-dia, eu acho. O que mais vejo - e me pego fazendo - é falar
mal dos outros como os políticos, por exemplo. Não que eles não mereçam. Mas
e a minha parte ? Como se perguntou o Sant'Anna, será que eu estou fazendo o
que me cabe fazer ?
 
Não me entenda mal, não estou querendo cultivar culpas, mas
assumir responsabilidades que antes eu não assumia. Será que eu não tinha
capacidade para ser mais útil, mais produtivo e mais solidário ? De ser mais
vezes o que oferece ajuda, ao invés de esperar ajuda dos outros ? E nos
momentos simples do dia-a-dia sou simpático e me preocupo com as pessoas, ou
sou egocêntrico ?
 
Ter boas intenções não é suficiente, pois não sei quantas das
minhas boas teorias eu coloquei em prática. O que a consciência pergunta,
afinal, é o que eu faço da vida, em relação à capacidade (de compreender e
de agir) que eu tinha, ou que eu tenho agora...

O ponto cego
 
 
 
            Você já deve ter visto ônibus, carros e motos se "arranhando" no 
trânsito e os motoristas descendo brabos dizendo que o outro surgiu "do 
nada". Não é mentira, às vezes pode ser o chamado "ponto cego", uma parte do 
local que não aparece nos espelhos dos veículos. Mesmo cuidando todo 
movimento no seu campo de visão e conferindo espelhos laterais e 
retrovisores, sempre haverá um "ponto cego".
 
            Na sua vida, como na de cada um de nós, também há "pontos 
cegos", que se consegue perceber - tanto na vida amorosa quanto na familiar, 
no trabalho ou na nossa visão social. Você já se deu conta, alguma vez, que 
passou anos sem perceber uma situação, um aspecto, que agora nota ser muito 
importante ?  É quando um "ponto cego" se torna visível.
 
            O pior cego é o que pode ver e não vê, já disse o Quintana, o 
que serve para todos nós, como Freud demonstrou, que mandamos para o 
inconsciente.o que não queremos ver. Mas se o que vai para o inconsciente é 
o que reprimimos, então os "pontos cegos" de cada um são muito particulares. 
Já passou o tempo em que a repressão sexual era um problema generalizado, na 
era vitoriana, pois gradativamente, de um século para cá, o sexo foi 
passando de assunto proibido a obrigatório, como é hoje.
 
E o que seria hoje o "algo" para o qual estamos todos cegos, como nos 
provoca Saramago em seu metafórico "Ensaio sobre a cegueira" ?  É uma 
metáfora instigante, como reflexão sobre a sociedade atual. "Se puderes 
olhar, vê. Se podes ver, repara." - a citação da contracapa - parece sugerir 
a nossa cegueira para o outro, numa sociedade competitiva e individualista e 
ao extremo. Mas ainda haverá, além das cegueiras coletivas de cada 
sociedade, em cada um de nós algum ponto cego muito pessoal, que só nós 
mesmos poderemos procurar, identificar e resolver.
 
 
 
 

 

Futurologia
 
 
 
A expressão 'futurologia' foi criada na década de 40, por um
cientista político, para avaliar tendências, e corresponde à Era em que a
ciência assumiu o papel de prever, que durante milênios era atribuída aos
profetas. O pesquisador Tony Allan, ao estudar as previsões mais famosas
(em "O Livro de Ouro das Profecias"), narra a sequência de previsões do
futuro que vem desde os profetas bíblicos, passa pelo mais famoso profeta
leigo, Nostradamus, e sucessivamente pelos magos, como Merlin, e pelos
gênios, de Leonardo da Vinci até Einstein - quando se estabelecem os
fundamentos da ciência contemporânea.
 
"Há um padrão no fenômeno da profecia: o aumento do interesse
por ela em épocas de crise, uma fascinação em tempos de grandes mudanças" -
observa Allan em seus estudos. Futurologia, então, é a fase científica de
busca de respostas para nossas incertezas e angústias e, segundo o
pesquisador, "agora que a ciência assumiu o papel de prever, não é surpresa
que as pessoas esperem que as previsões venham em tons científicos". O
problema, segundo Allan, é que "o futuro continua tão misterioso quanto
sempre foi". No que ele tem razão, pelo menos em algumas situações, pois a
comunidade científica não previu nem o tsunami de 2004, nem a crise
econômica de 2008, nem a pandemia da gripe suína em 2009, tanto que não
houve medidas prévias que organizassem o enfrentamento destes problemas.
 
Se épocas de crise nos levam a buscar respostas em fontes
proféticas, esse poderia ser um dos motivos de curiosidade e interesse do
diretor Daniel Filho (dos sucessos de bilheteria "Se eu fosse você"), que se
confessa ateu, sem qualquer crença espiritual, mas que está gravando um
filme sobre a vida de Chico Xavier, a ser lançado em abril de 2010 (no
centenário de nascimento do médium). O brasileiro é considerado um povo
aberto à espiritualidade e às diversas religiões, no que se assemelha mais
aos americanos que aos europeus - os quais são cada vez mais céticos e
materialistas, segundo dizem as pesquisas sociológicas.
 
Intelectual perspicaz, Luís Fernando Veríssimo ironiza o que chama de
"pensamento único" - a tentativa de explicar todos os fenômenos da vida por
uma única teoria - o que se aplicaria não só às religiões que explicam tudo
pela fé, como também a muitos dogmas científicos, inclusive do darwinismo,
do marxismo e da psicanálise. Ao contrário do que se poderia imaginar, no
entanto - e não sei se isso vai aparecer no filme - aquele que é considerado
o maior médium que já existiu não era uma pessoa 'mística' no sentido
'mágico' da palavra. Segundo contava ter sido instruído espiritualmente,
Chico dizia que "se estiver doente, reze mas consulte o médico". E quando
lhe perguntavam se a humanidade evoluiria no "Terceiro Milênio", apontado
por muitos como uma Era mágica de "redenção" das imperfeições humanas (como
se essas tivessem data marcada para terminar), Chico respondia que "sim,
acredito em evolução moral da humanidade, mas daqui a 700 anos ainda será o
Terceiro Milênio".

Uma história alegre
 
 
 
            Em época de tantas preocupações e histórias tristes nos 
noticiários, vale a pena conhecer uma história alegre, relacionada a 
questões de saúde. O  americano Norman Cousins foi acometido de uma doença, 
a colagenose, na qual a sua boa condição econômica não serviria para 
resolver o problema, pois apesar dos tratamentos disponíveis não há cura 
médica para as chamadas "doenças auto-imunes, reumáticas". Nas crises 
agudas, ficava hospitalizado recebendo analgésicos para as dores. O relato 
do que ocorreu então está no livro de Mário Rigatto, "Preceitos fundamentais 
para uma maior quantidade e melhor qualidade de vida".
 
            Como um homem extremamente inteligente e perspicaz, Norman notou 
que, cada vez que um amigo ia visitá-lo, se o amigo, por engraçado, o fazia 
rir, quando o amigo ia embora ele se esquecia, por um tempo, de pedir o 
analgésico. "Puxa, passei horas sem tomar analgésico. Acho que foi a alegria 
que esse amigo me trouxe". A partir desse raciocínio, passou do fato à ação. 
Fez um pedido curioso: "Doutor, eu acho que quando eu rio me passa a dor e 
eu não preciso de remédios. Eu sei que esses remédios são bons, mas também 
sei que são tóxicos. O senhor se incomodaria se eu contratasse um cômico ?".
 
            Pois Norman Cousins melhorou tanto, tanto, que os médioc 
concluíram: "Não pode ser só riso". Resolveram investigar o fato 
cientificamente. Antes de o cômico chegar, tiravam sangue da veia do Norman 
E voltavam a tirar depois que o cõmico ia embora. Então, se observou que o 
sangue, depois dos momentos de alegria, era diferente. Por exemplo, num 
teste bem básico, como "eritrossedimentação", usado para acompanhar a 
evolução de quadros de reumatismo, a velocidade de sedimentação dos glóbulos 
vermelhos, que é muito alta nesses casos, diminuía acentuadamente, 
aproximando-se do normal. Único remédio utilizado: alegria.
 
            Quem o fazia rir, no início, eram os amigos - e isso não custa 
nada. Então qualquer um de nós pode aproveitar essa "experiência científica" 
de alguma forma, tentando enfrentar com o melhor humor possível até mesmo os 
problemas de saúde.
 
Se você já está tomando todos os cuidados que estão ao seu alcance, adianta 
ficar sofrendo o tempo todo, se preocupando com todos os riscos possíveis ? 
Sim, pode parecer estranho manter o bom humor em épocas difíceis, como numa 
notícia há poucos dias de que o senador Suplicy (um dos poucos não acusados, 
naquela casa) subiu à tribuna do tumultuado Senado para cantar uma música de 
Cat Stevens, falando em pais e filhos, às vésperas do dia dos pais. Ele 
correu o risco de ser visto como uma espécie de alienado, não é verdade? Mas 
às vezes pode ser uma forma de preservar a saúde, também, como nos lembra a 
história narrada naquele livro do  Mário  Rigatto, um dos maiores mestres da 
história da nossa Medicina.
 
 
A química dos afetos
 
 
 
            Tem aquela do louco que batia com um martelo na cabeça e quando 
o outro perguntou se ele era masoquista, respondeu que não, pelo contrário, 
que doía mas que batia porque "você não sabe como é bom quando eu paro". 
Quem já tomou um remédio para dor de cabeça sabe como é bom quando para de 
doer. Por coisas simples assim é que a química, irresistivelmente, faz parte 
da nossa vida. De momentos de depressão a episódios de insônia, quem já não 
usou algum psicofármaco ?  É impressionante o desenvolvimento da 
farmacologia nas últimas décadas - na busca de medicamentos mais eficazes e 
com menos efeitos colaterais - e será mais ainda nas próximas. Para o prazer 
imediato do alívio do sofrimento, temos uma variedade de ofertas, como um 
'shopping' de produtos químicos. Cada espécie de emoção humana corresponde a 
uma determinada "situação química" em nosso organismo, na qual somos capazes 
de interferir com algum fármaco.
 
            A maior e mais poderosa fábrica química, no entanto, segue sendo 
nosso próprio organismo. Produzimos constantemente, o tempo todo, 
substâncias de todos os tipos, para regular as funções do próprio corpo e 
mente em nossas atividades diárias.  Todos sabem que produzimos adrenalina 
sob estresse e, ao contrário, endorfina em situações prazeirosas, ou 
mediante atividade física saudável. O terapeuta familiar Salvador Minuchin, 
trabalhando com "famílias psicossomáticas" (quer dizer, com diabetes, asma, 
hipertensão, entre outras doenças), comprovou através de pesquisas que até 
mesmo a produção de insulina variava de acordo com o estado emocional, 
decorrente da forma como as pessoas interagiam em família. O próprio sistema 
imunológico reage às emoções, sendo nossas defesas fragilizadas diante da 
depressão e fortalecidas por uma boa auto-estima.
 
            Pesquisas sobre dependência química apontam a ausência paterna 
como um dos fatores de aumento do risco. E ainda estamos longe de superar os 
padrões culturais e emocionais - de todas as partes envolvidas - que levam 
ao afastamento parental dos filhos, em tão grande número de casos, após as 
separações conjugais. Com perdas para todos, mostrando que ainda não 
evoluímos a ponto de preservarmos satisfaroriamente vínculos fundamentais, 
em novas situações de vida.
 
            Abrigos superlotados, decorrentes de pais que não conseguem 
criar os próprios filhos, são uma realidade premente a ser enfrentada, como 
apontou recente artigo de magistrado. O abandono é a forma mais visível de 
conflitos que acontecem mesmo nas famílias preservadas, como já disse Millôr 
Fernandes, "quando penso nas vítimas dos lares desfeitos, lembro das vítimas 
dos lares intactos".  Enfim, conflitos parentais não são fatos com os quais 
podemos nos acomodar. Como até as pesquisas sobre dependência química 
demonstram, pais são necessários.
 
            A energia envolvida em conflitos pode ser direcionada para 
restaurar relações, por mais difícil que isso seja, ao menos para minimizar 
seus efeitos. Lembre de uma experiência de conflito que você resolveu, não 
foi um grande prazer, uma felicidade maior ainda que a do louco da anedota, 
quando para de bater com o martelo na cabeça ? Nenhum prazer é maior, para o 
corpo e para a alma, que o afeto. Para nos lembrar disso é que devem servir 
datas como o Dia dos Pais, quando se celebra essa nobre missão.
 
Responsabilidade e informação
 
 
 
            A sua vida, a minha e a das pessoas que amamos tem prazo de 
validade, por mais chocante que seja a idéia de que temos um prazo final, 
como tem o iougurte, após o qual "os germes tomam conta"...  Mas se 
perdessemos uma pessoa querida  depois dos 100 anos, supõe-se que nos 
conformaríamos mais do que se a  perdessemos antes dos 50, por exemplo. Essa 
é a verdadeira questão da gripe A, o risco para pessoas jovens e previamente 
saudáveis, por isso não é exato dizer que esse vírus  causa "tantas mortes 
quanto" o influenza comum.
 
            As autoridades de saúde tem repetido essa "tese estatística" de 
comparar as vítimas do H1N1 com as da gripe comum, o que não impede que a 
população perceba a diferença entre os riscos de ambas. Há de haver motivos 
para esse  "discurso oficial", então. A primeira hipótese é a tentativa de 
evitar o pânico na população, diante da incapacidade de estabelecer 
barreiras à propagação do vírus. O que aconteceria se o medo do vírus 
aumentasse muito ? Desorganizaçao social e econômica, a ponto do 
desabastecimento e do caos, tal como no filme (feito para televisão) "Fatal 
Contact: Bird Flu in America" (Contato Fatal: Gripe Aviária na América) ? Na 
época do lançamento desse filme, em maio de 2006, Mike Osterholm, 
especialista em saúde pública da Universidade de Minnesota, que já naquela 
época advertia e dava consultoria sobre a ameaça de uma pandemia de 
influenza, disse que "Não estou feliz... Eu me preocupo que isso possa muito 
bem ser retratado por muitos como exemplo último de sensacionalismo".
 
            O medo das consequências psicológicas explica a preocupação das 
autoridades em ser "cautelosas" com os números, como aconteceu entre os dias 
23 e 26 de julho, período em que a Secretaria da Saúde do RS não confirmava 
a  informação do Ministério da Saúde sobre 5 novas mortes, desde o dia 23, 
confirmadas pelas autoridades do RS só no dia 26 - quando soubemos que mais 
15 mortes neste Estado também aguardavam os exames para confirmar as 
suspeitas sobre o H1N1.
 
            Se alarmar a população pode ser uma irresponsabilidade, cabe 
perguntar sobre o caso contrário, o de subestimar os riscos e a intensidade 
das medidas preventivas a serem adotadas. Nesta mesma semana em que já são 
confirmadas meia centena de mortes - e outras tantas suspeitas - no país, me 
pareceu preocupante  constatar, por exemplo, na praça de alimentação de um 
shoping, funcionárias gripadas trabalhando. Assim como em outros locais, 
pois se a ordem é que não haja pânico, gripe não é "desculpa" para não 
trabalhar.  Mesmo com a demora nos exames e o evidente despreparo da rede de 
saúde para o atendimento adequado, como no caso de uma gestante - mesmo com 
determinação de atendimento  prioritário, pelas autoridades, pelos risco 
para mulheres grávidas - que relatou ter levado uma hora e meia aguardando 
até conseguir ser atendida.
 
            Na Medicina é o "diagnóstico diferencial" que distingue 
situações de maior ou menor risco. Como podem as autoridades tomar medidas 
preventivas (como adiar retorno às aulas) sem alarmar e como atender às 
demandas com as insuficiências da rede pública ? Há exemplos preciosos de 
gestão no Instituto de Cardiologia e na Santa Casa de Porto Alegre, de 
qualidade de "primeiro mundo" no atendimento à saúde pública 
(paradoxalmente, com apoio de empresas privadas, enquanto há empresas 
públicas que investem em futebol). Essa epidemia é um desafio e - por isso 
mesmo - pode levar a reavaliar prioridades sociais e a valorizar 
investimentos estruturais em saúde, do que lembramos quando há algum risco 
ao nosso maior bem, a própria vida.
 
 
 



Comprados com defeito



            "Deputados comprados vieram com defeito" foi uma das primeiras
manchetes da revista "Casseta e Planeta", que precedeu ao programa de TV.
Antes da atual era investigativa da imprensa, foi a turma do humor quem
intuiu manobras parlamentares como os "atos secretos" do Senado.  Muitas
pessoas desanimam com tantas denúncias, mas elas são sintoma de uma
liberdade de imprensa que não tínhamos - e o aumento da fiscalização e da
informação sobre as verbas públicas são um sinal de desenvolvimento
civilizatório.

            Há quem não acredite em evolução social e argumente que não
progredimos nada desde a antiguidade, pois a Grécia já havia inventado a
democracia. Mas essa tese esquece que na democracia grega havia escravos - e
isso era considerado normal na época. Assim como, há poucas décadas, um
tradicional político paulista cultivando a imagem do "rouba, mas faz" se
reelegeu várias vezes, em seu estado. Ainda existem, é verdade, pessoas que
acham natural a corrupção, inclusive para vender o seu voto - e isso ainda é
capaz de decidir eleições em alguns locais. Um raciocínio imediatista, que
não calcula o rombo que um administrador desonesto pode deixar para a
comunidade.

Tudo isso faz parte, afinal, da idéia de que "tudo na vida é comércio" (lema
de um personagem de "Caminho das ìndias"). Então, somos todos mercadorias e
a diferença entre as pessoas é que umas teriam mais valor que as outras.
Ídolos populares também falam coisas assim às vezes, como aconteceu
recentemente com jogadores argentinos de ambos os times da dupla Gre-Nal. O
atacante de um destes está sendo processado por possíveis ofensas racistas,
ocorridas em meio a uma partida.  O do outro time da dupla, também vai a
julgamento, mas por causar tumulto após ser expulso. Este, quando criticado
por perder um pênalti, na partida seguinte, respondeu para a imprensa que
"se não tivesse defeitos, estaria jogando na Europa".  Bom, se ele próprio
se trata como uma "mercadoria com defeito", quem somos nós para discordar ?
Se essa declaração fosse notícia no "Casseta e Planeta", o título seria algo
como "jogadores comprados vieram com defeito".

 

 

 

COMPORTAMENTO                    Montserrat Martins

 

O pedido impossível

 

            Sucesso e genialidade no mundo da música, fracasso e tragédia na vida pessoal: o que podemos aprender com a história de Michael Jackson ?  Mais que a saga de uma pessoa, é a epopéia e o drama de uma família, em que - para o bem e para o mal - o papel do pai foi decisivo. Sem ele não haveriam os "Jackson Five", de onde Michael foi lançado para o estrelato, mas os problemas tem a ver com ele, também. 

Mesmo sem sabermos todos os detalhes, muito da vida do artista transbordou para os espaços da mídia em todo o mundo. Não sabemos tanto da mãe, mas do pai se aponta a obssessão pelo sucesso dos filhos, a ponto de torturá-los psicologicamente para extrair deles a perfeição do desempenho no cantar e dançar; a perversidade deste mesmo genitor, acusado pela filha La Toya de haver abusado dela. Do Michael crescendo, sempre famoso, questionou-se a transformação da cor de sua pele, que ele alegava ser devido ao vitiligo; do Michael já adulto, os processos judiciais  acusando-o também de abuso. 

            O que essas situações extremas - do sucesso às tragédias - tem a ver conosco ? Um ponto em comum, entre estes extremos e nossas vidas, é o "pedido impossível" do sr. Jackson (no caso dele, uma exigência) aos filhos: se tornarem absolutamente "perfeitos". Dentro da ótica dele, é claro, de uma perfeição estética. A batida perfeita, a coreografia perfeita, a performance perfeita, o tempo todo. Seguindo essa lógica, todo investimento de Michael foi feito só no corpo. Ouvimos falar em médico clínico, em dermatologista, em medicamentos, nunca em investimento em terapia ou qualquer alternativa para um crescimento emocional - ao contrário disso, sua fixação era viver uma infância que não teve, na "Terra do Nunca".

            A cobrança de uma perfeição sobrehumana, desconsiderando necessidades emocionais, é o protótipo de expectativas a que todos estamos sujeitos - em maior ou menor grau - a projetar nos filhos. Mesmo que estejamos longe dos desequilíbrios dos Jackson, temos em nosso cerne humano o desejo de nos realizarmos através dos descendentes, esperando deles que se projetem para além de nosso próprio exemplo e de nossas contradições, de onde a expressão "faça o que eu digo, não faça o que eu faço".

            Há muitas formas sutis de formularmos algum tipo de "pedido impossível" para nossos filhos, começando por protegê-los de toda espécie de más experiências, como no clássico conselho de "se divirta, mas não abuse" e a irônica resposta "afinal, é pra me divertir ou pra não abusar?". Outro  pedido impossível é o de sermos "pais perfeitos", que não erram e não esperam demais dos filhos. Isso não existe. Temos de aprender a rir de nossas próprias "neuroses", não nos levarmos a sério demais, sermos mais tolerantes com as nossas contradições e as de nossas famílias. O pedido impossível é o de que sejamos absolutamente perfeitos e, de todas as obssessões, esta é a mais perigosa. 
 

 

COMPORTAMENTO                                 Montserrat Martins

 

Seduzidos pela química

 

            "Fazemos cada vez mais cesáreas e menos partos naturais, nas cólicas dos bebês damos remédios derivados do ópio ao invés de massagens, temos cada vez menos tempo para o contato pessoal, enquanto a indústria farmacêutica já é a segunda maior do mundo... São sintomas de uma sociedade voltada para o prazer imediato,  sem usar a razão e a sabedoria, que recorre  cada vez mais a substâncias e dedica menos tempo para os relacionamentos".

            (Renato Termignoni, Professor de Pediatria da UFGRS, em palestra aberta ao público)

 

            Há uma "química" da paixão, as emoções despertam reações intensas em todo o nosso organismo. O corpo humano é uma fantástica "fábrica química" das mais diversas substâncias,  produzindo desde adrenalina em momentos de estresse até endorfina em situações saudáveis. Mas a mesma ciência que desvenda - e mostra como é poderosa - a nossa "química natural", também nos oferece inúmeras substâncias, sintetizadas em laboratório, para lidarmos com essas mesmas emoções.

            A sensação de prazer é sempre sedutora, seja produzida por meios naturais ou artificiais. Grandes mestres da Medcina, como Mário Rigatto, já apontavam no século passado que o progresso científico conduzia às mais diversas tentativas de "calote na natureza", tais como comer e não engordar, ter saúde sem exercícios, sermos felizes sem maior esforço. E a  "pílula da felicidade" é uma fantasia eterna da humanidade, como é o caso do "soma" que todos tomam em "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley.

            Não são os usuários de crack, portanto, os primeiros a sucumbir à sedução das drogas, em troca de momentos de prazer. A busca de soluções "mágicas e instantâneas" para a  infelicidade, ou para o vazio existencial, acompanha a história das civilizações e de suas culturas. No século XIX, grande parte da população chinesa foi dominada pelo ópio, motivo de duas guerras com os britânicos. A própria cocaína, de onde deriva o crack, foi refinada pela primeira vez em 1857, por uma indústria farmacêutica alemã.  Freud, entre outros médicos da época, tinha grandes esperanças nela como anestésico e ela foi usada como tratamento antidepressivo, antes de ser proibida por seus efeitos nocivos. 

            Há correlação, ainda (comprovada por pesquisas) entre o uso de drogas e a ausência  paterna. O que implica também numa questão cultural, pois nossa sociedade tem aceitado, passivamente, que das relações desfeitas os filhos fiquem sob a responsabilidade só das mães. Diga-se, de passagem, que isso faz parte de um "arranjo cultural" que não se deve só ao abandono por parte do pai, mas também ao apego por parte da mãe, pois já se conhece hoje o mecanismo da chamada "alienação parental", onde com frequencia a genitora se sente mais livre para o exercício de sua maternidade com o afastamento do genitor, sem perceber o prejuízo emocional para os filhos.

            Questões afetivas e familiares (como a exemplificada acima) são como um "vespeiro" em que evitamos mexer.  Nós, os médicos, também fazemos parte dessa cultura: nos sentimos capazes e úteis quando fazemos diagnósticos precisos cada vez mais precoces, de que uma criança é "hiperativa" ou até mesmo "bipolar", para prescrevermos psicofármacos eficazes.  Os próprios pacientes nos pedem soluções químicas para suas vidas e nessa área somos autoridades competentes para resolver seus problemas. Também somos "seduzidos pela química". 

O despertar da sociedade contra a tragédia das drogas - a começar pela conscientização contra o álcool no trânsito e agora, na oportuna campanha contra o crack - pode nos levar a aproveitar, quem sabe, a sabedoria de grandes mestres da Medicina, que nos ensinaram as melhores  potencialidades do nosso corpo e das nossas emoções para que, um dia, quando pensarmos que estamos "seduzidos pela química", estivermos falando de casais de namorados.
                     

 

                           Teoria da Bolha

 

         Imagine que uma bolha gigante envolva toda a cidade e o Estado onde você mora. Agora imagine que essa bolha é criada a partir da mente de todos os moradores desse lugar, sendo que nessa  comunidade, em alguns pontos específicos, a maioria compartilha da mesma visão sobre a vida - a partir da qual interpretam tudo que acontece no mundo. Quem é criado dentro dessa bolha, automaticamente, desenvolve idéias, sentimentos e noções a respeito da vida, do ponto de vista comum aos que vivem dentro da bolha.  É uma interpretaçao ilusória da realidade (porque é o mundo visto de dentro da bolha), mas parece verdade absoluta para seus habitantes.

            Essa "Teoria da Bolha" é do estudante gaúcho Lucas Kafruni, no seu primeiro ano na Inglaterra, em email para os amigos brasileiros. Ele está descrevendo sua própria experiência, é claro, saindo da "bolha" do sul do Brasil e vivenciando a "bolha" de Londres, de Cambridge. E não está dizendo nada de novo, que cada um de nós já não tenha percebido, de algum jeito.  (Meus amigos de Taquari, por exemplo, me contaram que o Oceano Atlântico foi formado por uma enchente do rio Taquari). Mas o interessante na metáfora da bolha é que a imagem que ela cria torna mais  "didática" a compreensão do quanto somos influenciáveis pelo meio, de  que pertencemos a uma determinada cultura e que em outras partes desse mundo - e do universo - existem modos muito diferentes de interpretar a realidade. 

            Lucas também pediu aos amigos que lhe indicassem livros. (Um "choque cultural" ajuda a repensar nossa interpretação do mundo). Ao fazer minha lista de sugestões pensei em outra bolha, a "Bolha do Tempo", que envolve todo planeta nessa Era da chamada "globalização". Que livros podem ajudar a compreender essa "bolha globalizada",  desses tempos em que estamos vivendo ?

            George Orwell, em "1984" (de onde vem o termo "Big Brother")  fez um retrato simbólico da sociedade atual e do futuro. Assim como Aldous Huxley, em "Admirável Mundo Novo", e Machado de Assis em "O Alienista". Outras formas profundas de refletir sobre nossos problemas estão  em "O Homem à Procura de Si Mesmo", de Rollo May, e em "Sobre o Poder Pessoal", de Carl Rogers.  Cada livro destes mereceria um comentário sobre o que nos mostram, quanto ao comportamento das pessoas no mundo de hoje. Mas hoje só lembramos de citá-los, aqui, como exemplos de leituras capazes de "ampliar" a bolha em que vivemos, aumentando nossa capacidade de reflexão. De onde vem a expressão de que a leitura (como uma viagem) é capaz de ampliar horizontes.

 

 

 

    COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins

 

Não tente fazer em casa

 

         Best-seller no Canadá e na Alemanha, o livro "Clube do Filme" conta a história verídica de um pai (David Gilmour, um crítico de cinema canadense) que concorda que o filho adolescente largue a escola desde que assista a três filmes por semana, escolhidos pelo pai.  O sucesso de vendas deve-se ao fato de que os adolescentes tem gastado suas mesadas comprando este livro, para dá-lo de presente para seus pais, eu acho...

         As melhores histórias são aquelas nas quais a gente gostaria de estar. Não é o máximo ter o trabalho de assistir filmes, ao invés de  ir a  aulas ou de ter outras profissões menos divertidas ?  "Clube do filme" tem sido "glamourizado" por alguns intelectuais (em crônicas de jornais ou sites) como se fosse um modelo de relacionamento pai-filho, porque serviu para "resgatar" uma relação que vinha sendo difícil, devido à rebeldia do jovem com os estudos.  Ou, indo mais além ainda, como se fosse um método de "educação pelo cinema".

Mas, na "vida real", quais as chances de dar certo para a formação do seu filho, trocar a escola por uma "educação por filmes"? Pode ser um ótimo negócio, desde que o pai seja um autor consagrado e consiga se sustentar escrevendo sobre cinema. O mais interessante nessa história, na verdade, é a busca de alternativas para relações parentais complicadas. Quem atende  jovens rebeldes sabe que é uma bela oportunidade quando eles gostam da mesma atividade dos pais: há histórias de filhos felizes aprendendo a ser mecânicos, padeiros, ou até advogados, com os genitores.  Já quanto a largar os estudos, estariam na "contramão da história", em plena "era da informação", em que até esportistas ou atores, que vivem do corpo, tem dado mais valor à educação.

         Fazendo atividades conjuntas - e as divertidas são ótimas para isso - se pode unir gerações, desenvolvendo "parcerias" com os filhos e ajudando-os a não desistir diante das dificuldades da vida, inclusive das "chatices" de muitas provas escolares. Se fosse para dizer que o cinema é uma escola, teríamos que ver o que cada filme em particular ensina. O filme "Click" (com Adam Sandler), por exemplo,  mostra o que poderia acontecer quando queremos fugir de problemas e "pular direto" para as coisas boas da vida. O que se pode extrair de melhor do best-seller canadense, então, é a história de parceria, de convivência, não a da desistência das coisas chatas da escola.  

         O cineasta Jorge Furtado foi muito sincero, no seu livro "Um Astronauta no Chipre", ao mostrar as diferenças entre "histórias de cinema" e a vida real. Mas as pessoas adoram aventuras, correr riscos para se divertir. O que obriga qualquer  apresentador de TV a viver repetindo - como poderia ser dito para os leitores de "O Clube do Filme" - que "não tente fazer em casa".

 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat  Martins

 

Coerência da conduta

 

            A piada popular sobre o bispo que teve filhos ("ele seguiu a Igreja, não usou camisinha") é antes de tudo uma ironia sobre a incoerência de alguém que prega algo sagrado e não cumpre o que diz.  Algumas das principais fontes do humor são justamente as  falhas na coerência humana, rimos das discrepâncias entre palavras e fatos, das contradições e das várias formas de atos absurdos cometidos pelas pessoas, às vezes até coletivamente, como na história em que todos queriam agradar o rei e apenas uma criancinha disse que "o rei está nú". 

Coerência é um assunto fundamental na conduta humana, porque revela o grau de confiabilidade de cada um.  Na Psiquiatria, um dos critérios de avaliação da verdade é a coerência entre o pensamento e o sentimento, porque pode ser observada uma sutil incongruência entre a emoção e a palavra, quando alguém mente.  Também há a linguagem corporal, que (como mostra o ótimo livro de Alan e Barbara Pease) pode ser "decifrada" para sabermos se o que uma pessoa verbaliza é autêntico ou dissimulado, pois o corpo pode mandar mensagens opostas ao que a pessoa está dizendo "da boca para fora".

É mais fácil ser "coerente" quando nada prometemos, é claro. Quando lembramos que "o homem, afinal, é um animal" já estamos nos desculpabilizando previamente por seguirmos nossos "instintos naturais" de autopreservação, por exemplo. Já quem defende a necessidade de evolução na vida social e na moral humana, está assumindo a responsabilidade de ter uma moral coerente com o que afirma.  Pois é nestes casos, geralmente, que as coisas se complicam, pois quem mais "prega moral" aos outros é quem terá mais dificuldades em ser coerente. Os pais de filhos adolescentes sabem do que estamos falando.

A coerência é um grande desafio para cada pessoa e para cada família. E nisso é muito difícil esperar bons exemplos dos governos ou das autoridades políticas em geral, pois o exercício do poder tem sido um dos maiores destruidores de coerências. Como agora, quando surge uma proposta para um plebiscito por um "terceiro mandado" presidencial. Se prosperar esse tipo de política, movido a interesses imediatos de manutenção do governo (com o qual a parcela do povo que não quer mudar pode até concordar) nós teremos o fim de uma  coerência na trajetória de quem se elegeu propondo uma nova forma de fazer política, democrática e sem personalismos. Como poderia, agora, se justificar um terceiro mandato, como se entre 200 milhões de brasileiros, só houvesse um com capacidade para ser Presidente ?  Se (como vem dizendo) resistir à tentação de aceitar essa proposta, que já foi lançada, teremos um Presidente com o mérito da coerência, na delicada questão da perpetuação ou da alternância no exercício do poder. 
 

 

 

 

            COMPORTAMENTO                             Montserrat Martins
        

                   Precisando "virar o jogo"

Pode ser mera coincidência, mas é no mínimo curioso que os técnicos campeões dos principais campeonatos estaduais do país sejam gaúchos: Mano Menezes no Coríntians e Cuca no Flamengo, além de Carpegiani no Vitória da Bahia e Tite no Inter, para não falar do atual técnico da Seleção (Dunga) e o último técnico Campeão do Mundo pela Seleção (Felipão).  Se o futebol pode ser visto como "metáfora" de alguma coisa, o que simboliza isso ? Porque o "estilo gaúcho" de liderar estaria em alta no país ? Nesse caso não seria coincidência o Presidente indicar uma candidata  também gaúcha, como a que ele gostaria que o sucedesse. Há alguma explicação racional para estas coincidências ?

Em alguns locais do país, o gaúcho é ironizado ou até francamente  hostilizado ou alvo de deboches, como o feito pelos paulistas do grupo  "Casseta e Planeta". Mas isso varia de região para região, pois no Rio, por exemplo, há maior receptividade para com os gaúchos. Seja causa ou consequência disso, circula pelos pampas a brincadeira de que o Brasil "é um país amigo".

Gaúcho é chato, metido, "se acha" como dizem por aí. Com razão: basta ver o hino riograndense, que diz nada menos do que "sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra". E repete essa parte ao cantar!  Como é que o país não ia zoar de gente assim ? Mas para algumas coisas servem os gaúchos, além de técnicos de futebol.

José Lutzemberger, por exemplo, foi um "chato incansável" pioneiro, 40 anos atrás, como um "Dom Quixote" quase solitário alertando para o desequilíbrio ambiental - que hoje está aí, como ele avisou.  Quem "levanta bandeiras" não é divertido, como aquela gente do carnaval, do funk, dos programas de TV feitos para "descontrair".

Agora, com a "epidemia de crack", vamos precisar de atitudes decididas das autoridades. De mudanças práticas, concretas, que vão além dos discursos políticos e sejam capazes de "virar o jogo" que estamos perdendo.  Vamos precisar de um estilo enérgico, que leve as coisas a sério e faça algo acontecer, uma "façanha que sirva de modelo a toda a Terra" contra o crack.  Não importa se liderada por gaúchos ou não, porque numa "guerra" como esta o que importa não é o lugar onde a gente nasceu, mas sim que o nosso jeito de ser: sério, determinado, decidido a "virar o jogo" - que não é só dos governos, é de toda a  sociedade.

 



 

Cuidando da sua vida

 

            Não sei o que você tem ouvido por aí, mas ouço seguido pessoas chamando de "esta gente" os adolescentes envolvidos com drogas ou crimes e desejando que eles pudessem "apodrecer numa cadeia", reclamando que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) seja tão "frouxo" com os jovens. Porque seus atos geram revolta - e não poderia ser diferente, pois não há como não sentir revolta quando somos vítimas da violência.

            Quando eles se tornam "bandidos" adultos, a revolta pode ser ainda maior, pois acreditamos que foi a escolha que eles fizeram na vida, de modo consciente. Bom, é isso que tenho ouvido por aí, da maioria das pessoas.  Com algumas exceções. Uma delas, que merece ser conhecida, é a do jornalista Humberto Trezzi, no seu texto intitulado "Cuidar do preso é cuidar de si".

            Trezzi vai direto ao assunto: "Quem se importa com o destino dos presidiários? Se você não se importa, deveria. Depende da melhora das condições dos presídios a diminuição dos índices de crimes fora das grades, nas ruas. É na miséria e nos escombros das cadeias que o crime organizado se fortalece. É dali que partem as ordens para os assaltos que deixam insegura a população e as sangrentas execuções que mancham as ruas das grandes cidades.".

Porque Trezzi pensa assim ?  Talvez porque seu trabalho inclua o contato pessoal com essas pessoas, conhecer a vida delas (como também o meu, só que entrevisto os chamados 'bandidos' como psiquiatra e não como jornalista)  E nesse contato não há como não perceber que eles tem famílias, dramas e sentimentos como todas as outras pessoas, mesmo que envolvidos muitas vezes num "círculo vicioso" da violência do qual não é nada fácil escapar.

O que Trezzi alerta é que não podemos "desistir" de enfrentar o problema da violência,  deixando prevalecer nossos desejos de vingança, como o de que eles "apodreçam" nas celas: "Quanto mais trabalho e menos tempo ocioso os detentos tiverem, menos delitos serão arquitetados a partir de masmorras como o Presídio Central.  E menos risco os cidadãos correrão. Os que sugerem deixar que os presos apodreçam deveriam zelar pelo seu próprio bem - e bens -, já que não ligam para a situação degradante dos presídios. Cuidar dos detentos, além de um cuidado humanitário, é uma questão utilitária. Parece óbvio que eles sairão dessas pocilgas, como a ala interditada esta semana no Central, pior do que entraram. Apesar de evidente, nem todos enxergam isso."

            Não pense que os sentimentos de revolta não passam pela cabeça de todos. Você, revoltado com pessoas que praticaram violências conta você ou quem você ama. Essas pessoas - que apesar de tudo ainda são pessoas - também tem as suas revoltas, e você não imagina quantas...

 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins 
 
Bipolar, hiperativo, SDA, TOC, DQ, pânico...

 

Uma criança de que perdeu o pai aos 8 anos e ainda sofreu maus tratos após a morte deste, passando a apresentar alterações de humor e conduta, foi diagnosticada no ano seguinte como "bipolar". É válido esse diagnóstico, ou os sintomas seriam reações ao luto e aos traumas ? E a abordagem terapêutica, nesse caso, deveria ser centrada em medicamentos, ou seria indicada   terapia familiar, ou outra forma de psicoterapia ?

            A Psiquiatria vive um momento de "euforia química" no mundo inteiro, decorrente do avanço dos psicofármacos e sua eficácia em suprimir sintomas de modo imediato, com grande oferta de novos produtos para praticamente todos os tipos de reações emocionais. Cumpriu-se a profecia de Aldous Huxley, em seu "Admirável Mundo Novo", quando previu que populações em massa iriam aderir ao "soma", nome dado naquele livro a uma espécie de  "pílula da felicidade".

            No SUS, com a universalização do atendimento num modelo "massificado", com pouco tempo para cada médico para atender à grande demanda, a abordagem centrada na intervenção química para os problemas emocionais é a que mais prolifera. Observa-se também que os diagnósticos psiquiátricos começam cada vez mais cedo: progressivamente, um maior número de crianças e adolescentes são classificados como bipolares, hiperativos, com síndrome de déficit de atenção (SDA), transtorno obssessivo compulsivo (TOC), dependência química, síndrome de pânico.

            É sabido que existem diagnósticos importantes que os médicos deixam de fazer. Como  sempre alertou o Dr. Sérgio de Paula Ramos, o alcoolismo é a doença mais sub-diagnosticada entre nós (pois se confunde com nossa tradição de permissividade cultural com o álcool) e isso já foi comprovado por pesquisas feitas entre os próprios médicos e estudantes de medicina. O mesmo pode ocorrer com os casos de drogadição (DQ, dependência química).

Por outro lado, talvez seja o caso de se avaliar se está havendo um "superdiagnóstico" de alguns transtornos "da moda" (como por exemplo o de "bipolar", ou de SDA),  por se menosprezarem outros fatores que geram tais sintomas. Assim como se confunde o déficit de estimulação cultural com um déficit cognitivo, em alguns falsos diagnósticos de "Retardo mental".

            Quando um "pseudo-diagnóstico" ocorre na infância, as consequências podem ser ainda mais  graves, pois aquela pessoa carregará (em sua identidade psicológica em formação) uma auto-imagem de anormalidade e de que seus problemas só se resolvem mediante intervenções químicas. Nesse aspecto, cabe uma reflexão séria por parte dos profissionais - e da sociedade como um todo - sobre o modo como estamos enfrentando e lidando com os problemas de nossas crianças e jovens.

 
 

COMPORTAMENTO                             Montserrat  Martins

 
Cada um pode fazer algo

 

"Epidemia de crack" é uma expressão realista, mas que ajuda pouco, na prática,  numa situação pessoal.  Porque falar em "epidemia" mostra que este é  um problema social,  ou seja, que a sociedade está "doente".  E essa verdade  não resolve o problema de quem está vivendo esse drama concretamente. Sim, as autoridades tem a obrigação de tomar providências  urgentes, mas enquanto isso cada pessoa envolvida assim não pode ficar só esperando por ações dos políticos. 

Quem tem um familiar ou amigo que use drogas, precisa ter bem claro, antes de tudo, que a primeira pessoa que tem o poder de ajudá-lo é ele próprio, pedindo ajuda e indo se tratar - não é a sociedade que o recupera, mas uma decisão interior de pedir ajuda. E as mais eficazes forma de apoio existentes até hoje são gratuitas, tais como os grupos de auto-ajuda (ou entre-ajuda) como os N.A. (Narcóticos Anônimos) e D.Q.A. (Dependentes Químicos Anônimos), que seguem o modelo dos AA (Alcoólicos Anônimos) -  incluído hoje em tratamentos médicos e também nos das Igrejas.

Existem muitas teorias médicas sobre fatores que contribuem para a dependência química, mas nenhuma delas teve efeitos práticos até hoje, não há nenhuma "vacina" ou procedimento médico que impeça alguém de desenvolver dependência. As teorias psicológicas tradicionais (como as teorias freudianas da oralidade e sobre a infância)  também não mostraram resultados práticos nestes casos. O primeiro método que se mostrou eficaz - e que hoje é difundido no mundo inteiro - foi justamente o criado por dois dependentes de álcool, Bill e Bob, do qual resultou a criação do AA (uma história que vale a pena ler, que se encontra em livro editado pelo próprio AA). 

Os médicos tiveram de ter humildade e coragem para reconhecer que um método leigo dava mais resultados - e pelo bem dos pacientes, passaram integrar os serviços de AA às clínicas médicas de desintoxicação. Mas a questão central continuou sendo a vontade de pedir ajuda, tanto que um dos lemas dos AA é "se você quer beber o problema é seu, se quer parar o problema é nosso".

E o que os familiares e amigos podem fazer ? Foram identificadas reações psicológicas comuns nos familiares, que oscilam entre a raiva e a pena, que passam a fazer parte de uma espécie de "jogo psicológico" que mantém a doença, dificultando a recuperação. Pois para isso foram criados os grupos para familiares de alcoolistas (os Al-Anon), baseados no qual surgiram vários outros grupos para quem convive com um dependente de drogas.

Existem outros fatores que influem na drogadição, como mostram pesquisas  que comprovam que a ausência paterna e a evasão escolar tornam o jovem mais vulnerável a drogas. Quer dizer, ter  atenção pode ser preventivo. Mas não se trata de achar que qualquer forma de atenção é válida, as histórias de mães desesperadas acorrentando filhos não são exemplos de abordagem eficaz. Nem abordagens superprotetoras, nem moralistas, são recomendáveis.  Para uma comunicação mais eficaz com um jovem que use drogas (na verdade, com qualquer jovem), seria muito útil a leitura de "Comunicação Não-Violenta", de Marshall Rosenberg, que mostra como podemos estabelecer um vínculo empático, no qual a pessoa possa se expressar de modo transparente.

Sim, sempre há algo a ser feito, na esfera da competência de cada pessoa (desde o próprio usuário de drogas até cada familiar ou amigo que se interesse em ajudá-lo), enquanto cabe a todos nós exigir que os nossos representantes eleitos - federais, estaduais e municipais - cumpram o seu dever de combater essa "epidemia".

 


Passagem

 

         Passagem é o significado do termo hebraico "Pessach", de onde vem "Páscoa".  O significado da páscoa cristã não tem relação conhecida com coelhos ou ovos, o que teria resultado da incorporação de costumes de povos pagãos, quando cristianizados. Os ovos são símbolos da vida, da fertilidade, que os povos persas, romanos, judeus e armênios tinham por costume oferecer e receber nessa época, a qual  no hemisfério norte é a passagem do inverno para a primavera.

            Na atualidade também se desenvolveram outros costumes nessa data, na prática, como o de aproveitá-la como feriado para viagens ou para dar outros presentes além dos ovos de chocolate, fazendo da Páscoa um "segundo Natal" para o comércio. Mesmo que a "tradição" mais forte atualmente seja a do consumo (dos presentes aos pacotes de viagem), vale a pena refletir por um instante sobre o significado da expressão "passagem" para a vida de cada um.

            Não só no sentido espiritual, também no aspecto emocional a noção de "passagem" é fundamental para compreender a vida e a busca da felicidade. Assim como "identidade" e "auto-conhecimento" são conceitos psicológicos básicos (para a capacidade da pessoa  fazer suas próprias escolhas, indo além das influências familiares e sociais), é importante termos claro que não somos seres "estáticos" e não somos sequer a "mesma pessoa", de uma certa forma, em diferentes etapas da vida. A criança dependente dos pais tem de "morrer" dentro de cada um, para nascer um adolescente capaz de se rebelar e de afirmar sua   identidade própria. Depois, é o adolescente impulsivo que precisa "morrer" em nós para que um adulto mais ponderado possa se desenvolver em nossa personalidade. O adulto orgulhoso de seu "saber" também precisa dar espaço a uma nova forma de sabedoria, a da velhice, com suas fragilidades, que requerem a capacidade de aceitar receber ajuda e cuidados dos outros. E por fim, como assinalou Erik Erikson, o momento de se resignar com o fim desta vida seria o momento da "dignidade versus desespero".

            Há outras formas de "passagem" que trazem grandes dificuldades de adaptação, como as provocadas por mudanças sociais, que ocorrem a uma velocidade cada vez maior. E isso em todas as áreas: mudanças de costumes, de formas de relacionamento, novas tecnologias, alterações das características de atividades  profissionais e do mercado de trabalho. Cada vez mais, viver é estar aberto a novas experiências, que a vida impõe sem que tenhamos tido tempo de escolher - e que temos de tentar assimiliar, compreendendo sua  inevitabilidade e buscando o significado das várias formas de  "passagem". 
 

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Da falta (e do excesso) de limites

 

           "Falta de limites" é a expressão perfeita para definir, por exemplo, a conduta dos senadores (que "não sabiam" dos 181 Diretores no Senado), com suas variadas espécies de mordomias e ganhos adicionais, em plena época de crise econômica e medo de desemprego para grande parte da população. Tudo dentro das leis, que eles próprios estabelecem em benefício próprio, alheios à ética e à moralidade.  Enquanto isso, a violência urbana segue ocupando espaços e se evidencia a perda de controle das escolas e das próprias famílias sobre o comportamento dos jovens, colocando o tema "limites" no foco da discussão.

          É ingênuo falar em limites sem considerar o contexto, que inclui múltiplas e complexas questões da sociedade contemporânea. Não existem "limites" como valores absolutos, sem algum tipo de referência.  E quais são os padrões de referência que temos hoje, afinal ?  Qual é o "padrão social" em cuja escala de hierarquia de valores se inscrevem os limites socialmente aceitáveis ou desejáveis ?  Os adolescentes não expressam  seus questionamentos com este linguajar, mas são atentos às contradições que observam.   

          Do ponto de vista emocional, a chamada "capacidade de tolerância à frustração" (a que permite aceitar e se resignar com impossibilidades) tem como referência instintiva a comparação com as experiências de outros seres humanos. Se nas eras primitivas o sucesso era caçar para sobreviver, não havia expectativa de usar "tênis de marca" e ninguém ficava frustrado por não tê-los.  É o nosso progresso material, enfim, que gera novas possibilidades para os que tem acesso a ele - com equivalentes novas formas de frustração aos "barrados na festa" do consumo.

          Cadeias e "febems" por todo o país estão superlotadas de jovens que não conseguiram tolerar frustrações e aceitar limites.  Os profissionais encarregados de atendê-los (pedagogos, assistentes sociais, psicólogos, médicos), no entanto, constatam que a maioria destas pessoas, até chegar ao ponto da transgressão, tem uma longa história de perdas pessoais e familiares. Pesquisas comprovam, por exemplo, que a ausência paterna aumenta a vulnerabilidade à drogadição. E grande parte desses jovens, sustentados por mães e avós com parcos recursos, vivencia grandes sacrifícios e sofrimentos daqueles que os criam, como é o caso das dificuldades de assistência médica quando doentes. Seria hipocrisia falar em "falta de limites" dos jovens marginalizados, sem considerar a seqüência cotidiana de suas vidas limitadas por perdas, impossibilidades, frustrações e mesmo humilhações psicológicas das mais diversas formas, eis que exercem habitualmente as funções mais desprestigiadas e menos remuneradas, em sua luta pela subsistência. Enquanto assistem, pela tevê, às benesses do consumo e a verdadeiras orgias de gastos,  como a dos parlamentares nesta espécie de "ilha da fantasia" em que tem se constituído o Senado Federal, em Brasília.

          Sim, a questão dos limites é fundamental na conduta dos jovens. Mas essa discussão, para ser séria e consequente, tem de ser mais profunda que as classificações de "tipos de psicopatas" feitas por alguns especialistas, quando se restringem à população-alvo dos que estão presos ou internados com este diagnóstico.

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COMPORTAMENTO                                         Montserrat  Martins

 

Habilidades valorizadas

 

            Vencedores estaduais de campeonatos de "aviãozinho de papel" ganham uma viagem para a Áustria, para participar da final mundial (do "Red Bull Paper Wings"). Campeões de videogame dos seus Estados já ganharam motocicleta como prêmio, enquanto o título nacional (do jogo "Winning Eleven") valeu um automóvel. E mesmo o skate ainda pré-profissional já ofereceu uma moto ao vencedor regional da categoria "amador 1". Também já existem concursos nacionais de grafitagem, ao mesmo tempo em que surgem e se proliferam outras "artes populares" como a dos meninos nordestinos que criam artesanato com folhas de milho para ganhar trocados dos turistas.

            Brincadeiras, esportes e artes que já foram tratadas somente  como "coisa de vagabundo", num passado recente, vivem uma época de inusitado "reconhecimento". Sinal dos tempos, porque tudo indica que no futuro  as mais diversas habilidades ligadas à criatividade, tais como jogos e entretenimento, continuem sendo progressivamente mais valorizadas e percebidas como uma espécie de "necessidade social".

 

 

COMPORTAMENTO                Montserrat Martins

 

Os especialistas

 

          Histórias verídicas comprovam que pessoas leigas são capazes, quando motivadas, de fazer até descobertas médicas - e isso já foi mostrado em filmes como "O Óleo de Lorenzo" e "Meu Filho Meu Mundo".  Mas, no cotidiano, é comum que os especialistas em saúde desconsiderem a capacidade de compreensão dos seus pacientes (muitas vezes, apelidados jocosamente de "cabeções"), não dando muitas explicações para estes. Isso aumenta as chances de "iatrogenia" (o erro médico), da qual a falta de diálogo e de empatia por parte do profissional é um dos fatores relevantes.  Por situações assim é que o médico italiano Franco Basaglia disse, uma vez, que "a Psiquiatria é muito importante para ficar nas mãos apenas dos psiquiatras".

            A reverência dedicada aos "especialistas" em cada ciência é uma faca de dois gumes, pois assim como pode contribuir para o progresso, também pode trazer em si, como efeito colateral, a auto-suficiência e seus efeitos nocivos à sociedade.  Pois não foram os próprios "especialistas" da área do sistema financeiro que levaram a economia global a essa crise, para sair da qual apelam agora a intervenções econômicas estatais que antes abominavam ?  Em todos os ramos do conhecimento, vemos afrontas ao bom senso praticadas por "autoridades" em seus campos específicos de atuação. Causam estranheza na população, por exemplo, muitas atitudes do próprio Presidente do STF, Gilmar Mendes (tão rigoroso com movimentos sociais e tão brando com criminosos do "colarinho branco"), em suas interpretações dos direitos constitucionais.

            Esses questionamentos também dizem respeito à Teologia, neste mês em que o arcebispo de Recife "excomungou" o médico que procedeu ao aborto em uma menina de 9 anos, abusada pelo padrasto.  Em nome do bom senso, um relevante teólogo do Vaticano expressou posição diferente, lembrando que a vida da criança estava em risco com a gestação e que a atitude apressada do arcebispo gerava descrédito na Igreja.  Ao mesmo tempo, na África assolada pela AIDS, o atual Papa fazia críticas ao uso da "camisinha".  Episódios que nos lembram algo da era medieval, à qual se sucedeu a "bula da infalibilidade papal" - mas onde está escrito na Bíblia, mesmo, que haveria pessoas infalíveis entre nós ?  Ao contrário,  são bem  conhecidas as exemplares passagens sobre a necessária humildade e sobre abster-se de condenações morais, como no "atire a primeira pedra...".

            Tanto os "especialistas" das profissões científicas quanto os religiosos prometem uma vida melhor e mais feliz aos que seguirem os seus preceitos, mas é preciso lembrarmos que tais benefícios tem de ser visíveis antes de tudo para a própria população, ao invés de  compreensíveis apenas para as próprias "autoridades" em suas áreas. A não ser que acreditemos que a mensagem cristã foi escrita prioritariamente para os teólogos e que os assuntos pertinentes à saúde, à justiça e às finanças também devam ser comentados e criticados somente pelos respectivos especialistas.

 

 

COMPORTAMENTO                            Montserrrat Martins

Paraísos a descobrir

                       

            Graças à crise, que diminuiu o turismo de brasileiros para o exterior, aumentou proporcionalmente o turismo interno.  Quem só se fascinava com viagens à Europa ou outros continentes, agora descobre novos paraísos no Brasil mesmo – como nas praias catarinenses, do Rio ou do Nordeste.

            O Brasil não fica devendo em nada a outros países, em matéria de paraísos naturais. Se lá fora há as Seychelles, aqui temos Fernando de Noronha.  Se são charmosas as praias da Califórnia ou do Mediterrâneo, o mar de Búzios e o de Porto de Galinhas também são sucessos internacionais. Ao invés de se deslumbrar com o Gran Canyon americano, se pode  descobrir os encantos do Itaimbezinho no RS ou das falésias da praia do Pipa, no RN.

            A maior diferença, sejamos sinceros, está na riqueza de lugares como Dubai, com seus  investimentos arrojados em beleza e tecnologia – mas já surgem por aqui algumas iniciativas de beleza arquitetônica, como a nova ponte de Natal, com seus arcos em forma de velas de barco. Enfim, “o Brasil é um ótimo lugar para se construir um país”, como já ironizou Luiz Fernando Veríssimo, cheio de razão. Mesmo as agruras geográficas, como o sertão nordestino, podem ser enfrentadas. Assim como em Dubai, que floresce em pleno deserto, por aqui é a transposição do rio São Francisco que pretende levar água ao sertão.

            Sim, é claro que nossos recursos naturais requerem muitos cuidados.  A beleza  que pode ser explorada turisticamente também pode ser degredada pela poluição. Todos os  recursos naturais são esgotáveis, a começar pela água. E não faltam exemplos de desperdício  de nossas riquezas como, por exemplo, a concessão de reservas de minérios para exploração por investidores japoneses que em troca construiriam uma estrada de ferro.- a qual, no entanto, só servia para o próprio escoamento desses mesmos minérios até um porto.

A diferença entre uma nação que prospere com o bom uso de suas riquezas, ou que as degrade, é exatamente a diferença entre a mentalidade predadora, de exploração imediatista, ainda forte entre nós, e uma nova mentalidade, de uso sustentável e racional dos recursos – e dependendo do rumo que prevalecer aqui, teremos um país com um belíssimo futuro, ou não.

 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins 

 

A riqueza da diversidade

             As avaliações internacionais de que o Brasil será um dos países menos afetados nesta crise – em relação aos outros países, é claro – indica que fomos capazes de desenvolver  uma capacidade de gestão que nós mesmos nunca atribuímos aos “brasileiros”, motivo de piadas de nós mesmos, um povo que não reconhece a si próprio como sério e capaz. Ao contrário dos argentinos, por exemplo, tidos como vaidosos do que supõe ser.

            Tão marcantes quanto a influência alemã e italiana no sul e a japonesa entre paulistas e paranaenses (também com muitos poloneses) estão os descendentes africanos, holandeses e franceses entre cariocas e nordestinos, assim como os traços marcantes dos indígenas nos nortistas. Poderíamos falar de muitas outras culturas (por exemplos, árabes e judeus) que também constituem o grande “mosaico” que é a formação da cultura  “brasileira”, permanecendo o mistério sobre porque habitualmente  não nos atribuímos valor como um povo soberano.

             Será uma herança de séculos de colonização, onde o que vinha de fora sempre era considerado melhor ? Será resquício das guerras entre povos diferentes pelo domínio dessa terra, onde uns falavam mal dos outros ? Ao longo de nossa história tivemos muitas formas de guerras externas e internas, incluindo conflitos políticos, étnicos, religiosos, além das entre diferentes países, pela posse do local.

             Permanecem entre nós questões muito mal resolvidas, como as enormes diferenças sociais, um dos fatores (além da urbanização desorganizada) da atual violência urbana. Mas a verdade é que já ultrapassamos algumas etapas, ao longo destes séculos, até chegarmos à atual sociedade cuja constituição garante a liberdade e direitos humanos sem distinção de raça, religião, sexo ou de qualquer outra forma de discriminação. Somos uma democracia estável e já aprendemos a conviver com as diferenças, pelo menos em relação aos séculos passados. Se ainda há um longo caminho a percorrer e muitas novas formas de opressão, mais sutis, não é negando a nossa cultura que iremos avançar, pois para evoluir uma nação precisa – além da competência administrativa – também  conhecer e valorizar a própria história.

 

 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins

 

Gente também é bicho

 

Não sei se você já ouviu falar que a PETA - uma ONG de defesa dos animais - está oferecendo um milhão de dólares para quem criar carne artificial. Já se ouvem críticas do tipo "com tanta gente passando dificuldades, eles gastando com os bichos". Mas há pelo menos uma relação importante entre essas questões: várias pessoas, dentre as que se tornam violentas, começam maltratando animais.

Um estudo da Universidade de Princeton mostra que... bom, na verdade, não temos notícia  dessa pesquisa acadêmica. (Desculpe a brincadeira, não resisti. Os noticiários científicos costumam se "validar" por pesquisas de Princeton, não é mesmo?). De fato, é lógico prever a relação entre a sensibilidade para com os animais e o modo de tratar as outras pessoas. O certo é que,  nas avaliações psiquiátricas de pessoas com traços violentos na sua personalidade, às vezes há histórias de sadismo contra os bichos, desde a infância.   Procurando informações sobre essa correlação, via internet, encontramos que "em pesquisa realizada por DeViney, Dickert & Lockwood, 1983, abusos contra animais aconteceram em 88% das famílias em que ocorreram casos de abusos físicos contra crianças". E também que  "a Humane Society of the United States (HSUS) é a primeira organização a conduzir um estudo nacional examinando a predominância de violência humana em situações que envolvem crueldade contra animais.O estudo da HSUS, conduzido de janeiro a dezembro de 2000, aponta números de pessoas que maltratam animais, tipos de animais maltratados e incidentes de violência em família nos casos mais comuns de crueldade contra animais, nos Estados Unidos".

Quem não tem sensibilidade com os bichos, portanto, pode não ter com os seres humanos (nós também somos uma espécie animal e cientistas como Darwin e Freud sempre ressaltaram isso). Mas a recíproca não é sempre verdadeira, porque há quem trate os seus cachorros - ou os seus cavalos - melhor do que trata às outras pessoas.

Enfim, a coerência dos valores propagados pelas ONGs que defendem animais poderia ser verificada pelo quanto eles consideram que "gente também é bicho" e que suas campanhas possam trazer também benefícios humanitários. Se o ensinar crianças (desde pequenas) a respeitar a vida dos animais for associado ao pacifismo e à solidariedade humanas, valerá a pena investir um milhão de dólares em carne artificial. Se fosse para o benefício apenas dos outros bichos - sem incluir a nossa espécie - seria uma pena não lembrarmos, nessa hora, que gente também é bicho.
 

 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins

 

"Beijar muuuito !!!"

 

         A cantora Cláudia Leite (entre outras "animadoras" do carnaval) quando dá entrevistas termina dizendo para seu público  "beijar muuuito !!!", enquanto o governo em campanhas de TV recomenda "se se der bem no carnaval, use camisinha". Preservativo é fundamental, mas não impede todas as doenças transmissíveis: várias doenças virais e infecciosas são transmissíveis pelos próprios beijos. Nessa moda de "beijar muito",  quanto com mais parceiros uma pessoa "ficar", mais chances terá de contrair hepatites, amigdalites, herpes, mononucleose e até meningites e doenças sexualmente transmissíveis (estas últimas, no caso de microferidas na boca, que podem não ser perceptíveis).

            "Aproveite e se cuide" é a frase que vem antes de "afinal, é pra me divertir ou pra me cuidar?". Na geração dos pais (ou avós) de hoje, o então "rebelde" Roberto Carlos já perguntava "porque que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?". Esse assunto não tem nada de novo, então. Mas e aí, como curtir a euforia do carnaval, sem que o medo estrague a diversão ?

            Nem todas as alegrias são autênticas, os próprios adolescentes contam que muitas coisas são feitas "pra se aparecer", quer dizer, para impressionar os outros, contar vantagens para os amigos, como é o caso das competições do tipo "quem beija mais". Não que não seja prazeiroso por si só, e isso também não tem nada de novo, Woody Allen já disse que "sexo sem amor é vazio, mas como uma coisa vazia é das melhores". A questão é mesmo escolher o que "vale a pena", porque viver se preocupando com tudo não é divertido, mas viver querendo "se aparecer" para a turma também é ridículo - um vício infantil, no qual a pessoa "não cresce", pois mesmo na adolescência há muita diferença entre os jovens mais imaturos e aqueles com mais personalidade.

            A "campanha" para "beijar muuuito !!!" também pode ser um incentivo (indireto) a beber muuuito, porque beber ajuda a "se soltar". E beber demais e brigar, dirigir bêbado e se acidentar, são tragédias que se repetem a cada carnaval, pela euforia descontrolada, impulsionada pela vontade não só de se divertir como de "fazer sucesso" para os outros verem. Nessas horas, o bom senso pode salvar vidas.

            "Bom senso" é uma expressão sutil, subjetiva e difícil de definir, que teria origem em "comum sense" (senso comum), sendo que nem sempre o senso comum (o da maioria das pessoas) é uma referência de felicidade. Agir "como a maioria" das pessoas é tentador, porque ninguém gosta de se sentir "sozinho" ou uma espécie de "E.T." enquanto os outros à sua volta parecem se divertir tanto... Mas será verdade ? Saber distinguir a euforia aparente das verdadeiras alegrias da vida, é uma etapa importante na busca da felicidade (por isso se fala tanto hoje em "transtorno bipolar", de tantas falsas euforias por aí). Não tem outro jeito, para ser feliz cada um tem de desenvolver o seu próprio "bom senso", pessoal e intransferível - porque é algo íntimo o que faz você se sentir muuuito feliz de verdaaade.

 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins

 

A sedução da imagem

 

         Não sei se você já ouviu falar de um site (afarsadoseculo) no qual fotógrafos profissionais questionam (a partir de detalhes técnicos de luz, sombras, proporções, etc) as imagens do homem na Lua, vendo nelas indícios de uma produção de Hollywood.  Parece difícil crer que se possa "enganar a todos o tempo todo" até hoje, como insinuam esses fotógrafos, mas o que importa também, nessa questão, é ressaltar o poder das imagens e o uso que se faz delas. Um filme já "clássico" (de 1997) para demonstrar o poder da  criação de imagens cinematográficas e seu uso político é "Mera Coincidência" (com Dustin Hoffman e Robert de Niro), numa produção hollywoodiana que denuncia a si mesma.

            Além de plásticas, eminências políticas dependem cada vez mais dos meios de difusão de imagens (da TV, internet e toda espécie de filmes) para conquistar e manter a gosto a sua exposição pública. Mas todos nós - e não só os políticos - estamos também sendo "obrigados" a acompanhar essa tendência global de cuidados com a imagem pública, seja qual for nosso tipo de atividade profissional ou estilo de vida pessoal.     

            Ao contrário das pequenas cidades do interior, onde todos ainda se conhecem pessoalmente, nos centros urbanos em expansão só se sabe dos outros pelo que se "ouve falar", ou seja, pela imagem pública que cada um desenvolve no convívio social - tal como suas fotos em festas, por exemplo. E a imagem que uma pessoa transmite socialmente não significa que ela seja (ou esteja) como aparenta.

            Mesmo sabendo que "as aparências enganam", temos de reconhecer que a sedução da imagem tem algo de irresistível. Isso pode significar algo mais profundo, porque mais que uma "forma" de se mostrar, ela também traz em si um "conteúdo" implícito.  Afinal, preocupar-se em manter uma imagem agradável aos outros não deixa de ser uma atitude positiva - no sentido de levar em consideração os valores dos outros - mesmo que essa imagem não seja completamente autêntica. Quem preferiria nos ver "autenticamente" desarrumados ou mau humorados na maior parte do tempo, afinal ?

            Se "a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer", no dizer de Mário Quintana, isso significa que nossas imagens "socialmente melhoradas" correspondem a um "ego ideal", quer dizer, não do que somos, mas do que gostaríamos de ser.  Manter esse equilíbrio entre a imagem idealizada e nossa identidade mais autêntica é um desafio do nosso tempo, pois não perder a identidade também é uma necessidade humana. E conviver com limites que a realidade impõe faz parte da natureza, pois não há mais beleza onde vemos apenas artificialidade. 

 

COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins

 

Motivação ideológica

 

            Quem observar as margens da BR-101 em duplicação, pode notar várias novas construções, comerciais e residenciais, constatando como as obras injetam dinheiro na economia local. O  Presidente anunciou, esta semana, que um milhão de novas casas serão construídas  no Brasil,  nos próximos dois anos, pelo Governo Federal. Nos Estados Unidos, a mesma proposta: obras públicas para aquecer a economia. Em Davos, no Forum Econômico,  os governos dos países do G-8 foram saudados como os salvadores da crise, por palestrantes liberais que passaram toda sua vida, até então, pregando o "Estado mínimo" e a não-intervenção estatal na economia.

            A crise global tem a função "didática" de reabrir a questão sobre modelos econômicos e sociais e remetem, indiretamente, a polêmicas sobre o próprio comportamento humano.  Os teóricos liberais, por exemplo, sempre afirmaram que a única motivação para o trabalho é o lucro, no que foram contraditados por Marx, que assinalou que "no sistema capitalista, quem mais trabalha é quem menos ganha". Por outro lado, o estatismo absoluto se esgotou como modelo no caso soviético e na Europa Oriental e se mostra totalitário no caso chinês. Entre nós, há a "cultura" de ver o estatal como "terra de ninguém", quer dizer, de usar os bens públicos para obter vantagens privadas. 

            Mas afinal, qual é a motivação para o trabalho ?  De fato, trabalhar não é divertido, a não ser em raríssimos casos (por exemplo, o trabalho criativo na  Google...).  Se não é pelo lucro, poderia ser pela "sobrevivência".  Mas o que faz com que algumas pessoas sejam mais motivadas e produtivas que outras que tem as mesmas funções e salários, seja nas empresas privadas ou nas estatais ?

            "O Líder Servidor" (Servant Leadership), de Robert Greenleaf, foi um marco na mentalidade empresarial do século XX, estando na origem da tendência de demonstrar que uma empresa não poderá subsistir, no futuro, sem que tenha uma "função social" identificada pelo público. Por outro lado, ao questionar "O que é socialismo, hoje", o economista Paul Singer (pai do porta-voz presidencial André Singer), mostrou que não poderia merecer esse nome um país que não garantisse direitos e liberdades aos trabalhadores, em nível maior que o sistema que pretende superar (a China  é classificada como um "Capitalismo de Estado", com uma burocracia no lugar da burguesia).

            Um dos fatores da motivação humana pra o trabalho , está se descobrindo agora, é o grau de consciência de que todas as obras - sejam na esfera privada ou estatal - são fruto de vontades   coletivas, de milhares de pessoas. De que todos somos servidores e beneficiários. De que o rumo das empresas e das sociedades e sua evolução - e em que rumos - depende de todos se sentirem "donos" e responsáveis por elas. Do que é nosso, nós cuidamos melhor, não é mesmo ? Sem essa consciência e motivação, o próprio planeta não agüentará mais muito tempo. 


 

 

  COMPORTAMENTO                                         Montserrat Martins

 

A Era do Entretenimento

 

            Se você é jovem e sonha em ser estrela de TV ou cinema, ou jogador de futebol, ou participar do "Big Brother", saiba que há vinte anos (quando seus pais eram jovens) isso seria uma vergonha para a família. O BBB não existia, é claro, mas ser "artista" ou "jogador" eram consideradas profissões de "vagabundos", pois o sonho dos pais era ter filhos médicos ou engenheiros (a informática mal existia) e que as filhas tivessem um "bom casamento".

            Acredite, o mundo mudou mais nos últimos 20 anos que em períodos de 1000 anos da história da humanidade (por exemplo, entre o ano 500 e o ano 1500). Estamos em meio a uma revolução de costumes, em todos os sentidos, e na verdade ninguém pode prever exatamente para que lado vai a civilização. O progresso nos deu um poder e uma liberdade sem precedentes e não sabemos que uso faremos disso.

            Uma coisa é certa: já há mais habitantes urbanos que rurais, na população mundial, e o estilo de vida urbano é muito mais "massificante", burocrático e estressante que a vida no campo. Isso leva a uma mudança na valorização das próprias profissões, porque precisamos cada vez mais de lazer, de entretenimento, contra o estresse do dia-a-dia. Novelas, seriados, esportes, filmes, moda, internet, ninguém mais vive sem isso.

            Os sociólogos já chamaram os tempos atuais de "Era das Massas", de "Sociedade do Espetáculo" ou de "Era do Entretenimento". Tudo está relacionado, as grandes massas urbanas, a necessidade de se destacar em meio à multidão por atos "espetaculares", a "glamourização" das profissões "artísticas" em geral - astros dos esportes, da moda, da mídia e ex-anônimos que "apareçam" de algum modo.

            Se você é "das antiga", não fique resmungando sobre o "rebaixamento de valores", pois nós sabemos que a sociedade tradicional anterior também tinha suas contradições e muita hipocrisia. O mundo não vai voltar atrás e se nós queremos que ele melhore, temos de entender em que Era estamos vivendo.

            Mas, para ser sincero, o que eu acho mesmo uma babaquice é o apresentador do BBB dizer que aquilo também é "cultura e lição de vida". Patética justificativa para um jornalista estar ali, numa função de um apresentador de circo. Não é cultura, pelo menos no sentido de que vá acrescentar valores para a vida de alguém. Não é lição de vida, lição de vida são pessoas que sobrevivem com salários humildes e criam filhos com dignidade. TV é entretenimento para as massas, assim como o "circo" romano - e assim tem de ser entendido, só que em vez de cristãos perseguidos por leões, lutando para sobreviver, vemos pessoas se expondo por fama a dinheiro a qualquer custo.

 

 

 COLUNISTA                                        Montserrat Martins

 

A pessoa do futuro




Ele deixa roupas atiradas pela casa, a mulher dele já reclamou (quando entrevistada em rede nacional de TV) que ele é bagunceiro, que achava ele esquisito e que às vezes até cheirava mal, não parecia um homem sedutor mas que, mesmo assim, quando o foi conhecendo acabou se envolvendo - descobrindo os ideais mais profundos que as primeiras aparências - e casando com ele. A mulher em questão é Michelle Obama e se discute, até hoje, se sua polêmica entrevista foi uma jogada de marketing - para mostra o então candidato como uma pessoa com os mesmos problemas do "cidadão comum" - ou se ela estava simplesmente sendo autêntica e "desabafando" seu cotidiano, do seu ponto de vista, das suas preocupações, garantindo que os filhos, por exemplo, não seriam negligenciados pela carreira do marido.    


Mais que o carisma pessoal e a história invulgar do cidadão do mundo Barack Obama, merece destaque a profunda mudança de valores ocorrida no seio da sociedade americana, que, afinal, fez uma escolha presidencial que seria impensável poucos anos atrás. Talvez tenha sido a irracionalidade desnudada da Era Bush (cujo poder e influência política se perpetuavam havia mais de três décadas, desde que o Bush pai foi diretor da CIA e depois presidente) que finalmente despertou o povo americano para essas mudanças.


Em sua autobiografia "A Origem dos meus Sonhos", Obama conta que (há mais de dez anos atrás) "tentava falar sobre a necessidade de mudanças na Casa Branca, onde... conduziam seus atos sujos. Mudanças no Congresso, complacente e corrupto. Mudanças no espírito do país, maníaco e egocêntrico. A mudança não virá do topo, eu dizia. A mudança virá das raízes, das bases mobilizadas."
            Uma curiosidade profética é a descrição da "pessoa do futuro", que tem muitas afinidades com a figura de Obama e seus eleitores, num livro escrito trinta anos atrás, "A Way of Being", de Carl Rogers (com apresentação de Irvin Yalom, o autor de "Quando Nietzsche Chorou").   As semelhanças incluem uma até então inacreditável abertura para fazer uma autocrítica cultural, do próprio espírito do país. Para quem se interessa por psicologia e sociologia, é uma leitura interessantíssima a  descrição das características da "pessoa do futuro", no capítulo final de "Um jeito de ser". Na época, essa previsão foi considerada, com certeza, absolutamente ingênua.


Naturalmente, ainda há muito ceticismo, desde os que acreditam que Obama será assassinado, até os que estão esperando o momento em que ele vá decepcionar a todos. Mas é inegável que algo de muito diferente aconteceu na história da humanidade - até porque seria imposível fazer um governo pior que o de Bush - e que está havendo uma evolução importante de valores, em direção ao futuro.

     

 

          COMPORTAMENTO                               

 

   Montserrat Martins  


      "O Inferno são os outros"

 

            Causa espanto à opinião pública, no mundo todo, que até o prédio da ONU tenha sido alvo do bombardeio israelense em Gaza, assim como escolas, hospitais, centros de imprensa, locais de ajuda humanitária... Sendo que a própria criação do Estado de Israel, em 1948, decorreu de sua aprovação na ONU (num momento histórico, em que o gaúcho Oswaldo Aranha era seu secretário-geral), o que faria este país atacar instituições internacionais que garantiram seu próprio direito à existência como uma nação independente ? Recém findo o holocausto vivido na Segunda Guerra, a criação deste Estado significaria também uma esperança futura de paz, um local para que um povo perseguido pudesse ter seu próprio território. Sabemos que isso não é fácil quando há grupos extremistas - como o Hamas - que até hoje não reconhecem o direito à existência de Israel e recorrem ao terrorismo para isso.  É natural que Israel queira se defender do Hamas, uma ameaça real, mas porque o descaso com a vida de tantos civis inocentes e instituições humanitárias internacionais ?

            Numa famosa carta de Einsten a Freud, o físico que é considerado o maior gênio da história da humanidade pede ao psicanalista: "Seria da maior utilidade para nós todos que o senhor apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais recentes descobertas, pois uma tal apresentação bem poderia demarcar o caminho para novos e frutíferos métodos de ação". Ao responder, Freud termina sua carta se desculpando ao dizer que "me perdoe se o que eu disse lhe desapontou", após expor que a solução para a guerra seria o processo de "civilização" dos povos, porque "tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra", mas "por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar".

            A esperança de Freud, portanto, residia na longa jornada civilizatória, na qual "sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós".  Mas como explicar que entre o tão sofrido e perseguido povo judeu, vítima de um holocausto, seja aceitável a morte de centenas de civis inocentes, numa ofensiva violenta que desconsidera os esforços mais elevados da civilização internacional, representado pela ONU e órgãos humanitários ? Como pode um Estado com um povo tão culto e tão sofrido, vítima da barbárie do holocausto, cometer atos que agora vem chocando a humanidade ?

            Para além da resposta que Freud conseguiu dar a Einsten, há uma máxima de Sartre que especifica o "ponto máximo" do processo de "civilização", a compreensão de nossa percepção habitual de que "o inferno são os outros", ou seja, de que nossa maior dificuldade humana está em ver em nós a nossa própria participação na violência, que atribuímos sempre como tendo causa nos outros. O ápice do processo civilizatório, então, seria desenvolvermos a capacidade de empatia, na qual para um israelense fosse tão dolorosa a morte de uma criança palestina, quanto para um palestino a morte de uma criança israelense. Não basta não ter prazer com a guerra - já que Israel alega que sua ofensiva é uma defesa contra os foguetes do Hamas. Para que não haja guerra, é necessária a compreensão empática de que todos são humanos, seja qual for sua raça ou religião.
 

           Montserrat Martins  

 

Planejamento, questão cultural

 

         Um documentário da TV japonesa mostrou em detalhes a construção de uma ponte pênsil, planejada para resistir a ventos de 300 a 400 km/hora. Lá, como na Califórnia, também há prédios projetados para resistir a vários graus de abalos sísmicos, por serem regiões sujeitas a terremotos.

            Há regiões do planeta sujeitas a baixíssimas temperaturas, nas quais se formaram sociedades com alto grau de desenvolvimento, como é o caso, por exemplo, da Suécia e do Canadá.  Contrastes tão grandes  entre as dificuldades impostas pelo clima e as vitórias obtidas por seus povos, nos fazem lembrar das teorias evolucionistas segundo as quais só sobrevivem os que se organizam para tanto. Num outro extremo climático, a agora tão badalada Dubai fica num deserto e foi projetada com muita tecnologia para o abastecimento de água.

            O Brasil é um verdadeiro paraíso natural, onde apenas após o ano 2000 surgiram ciclones, decorrentes da devastação das nossas matas e de todo desequilíbrio ecológico que produzimos. Temos menos agruras climáticas que a maioria dos outros países, mas não nos preparamos para enfrentar aquelas que seriam previsíveis.

            As enchentes em Santa Catarina foram precedidas de alertas dos ambientalistas que denunciaram, por exemplo, a falta de fiscalização do desmatamento às margens do rio Araranguá, que seria uma área de preservação. A questão não é nova, como nos lembra um artigo de Ana Echevenguá, pois "em Araranguá, moradores do bairro Barranca estão acostumados a conviver com enchentes toda vez que a chuva faz o nível do rio subir além de suas margens...".

            Na nossa cultura imediatista, alertas ambientais não costumam ser levados a sério, até que aconteçam calamidades. Essa característica do nosso povo, no entanto, não significa "falta de caráter", haja visto a solidariedade e generosidade que sempre se vê no socorro às vítimas, em todas as ocasiões.  O que nos falta, mesmo, é o desenvolvimento de uma cultura de pensar a mais longo prazo, ao invés de soluções momentâneas. Que passemos a incluir o planejamento em nossa cidadania, em nossos hábitos civilizatórios. Ou que simplesmente cansemos da repetição de "fatalidades", para que nos antecipemos a elas.

 

COMPORTAMENTO                            Montserrat Martins

 

Saúde, dinheiro, amor...

 

Uma pesquisa realizada por um site da internet, com a participação de mais de 100 mil brasileiros votantes, perguntava se as pessoas preferiam em 2009 ter mais amor, dinheiro ou saúde. A resposta foi cerca de 55% para a saúde, 30% para o dinheiro e 15% para o amor... Curioso, não é ? Pois o assunto mais falado no dia a dia (como se pode ver também nas novelas) são as questões amorosas de cada pessoa, não só as conjugais, mas os afetos de família, de trabalho, enfim todas as formas de amor... Os assuntos do coração empolgam as pessoas, mesmo os mais simples conflitos de amizade, então porque será que o amor parece tão pouco popular nessa pesquisa, sendo prioridade só para 15% ? (metade da votação do dinheiro, por exemplo). O que quer que as pessoas tenham entendido por "amor", nessa pesquisa, estã em baixa, o que pode ter as mais diversas interpretações possíveis. Vamos ver aqui algumas hipóteses.

      Primeira hipótese, as pessoas estão bem "de amor" e mal de dinheiro, quer dizer, estão  bem com suas famílias, estão todos unidos mas passando dificuldades financeiras. Será ? Pelo próprio perfil dos pesquisados - os usuários da internet - essa parcela da população não é a de pior situação econômica, e nada indica que as famílias da classe média estejam passando por uma época de relações tão harmoniosas assim. 

Segunda hipótese: é muito comum a interpretação de que o "amor" é decorrência da condição financeira, então será que os internautas acreditam que estando bem de dinheiro, estarão bem de "amor"? Nessa hipótese, estariam pensando nos fatores de interesse material que influenciariam o "amor", como uniões por interesse, e é possível que a palavra "amor" tenha sido interpretada como se referindo apenas ao amor erótico (como é mais constantemente usada na mídia) e não a todas as formas de amor, como as descritas por Erich Fromm no livro "A Arte de Amar". 

      Terceira hipótese: as pessoas acreditam que amor é conseqüência, e não causa, sendo a causa primária de todas a saúde - que, afinal, foi a reposta mais popular, com 55% dos votos, o que não deixa de revelar alguma sabedoria por parte dos votantes. A definição da Organização Mundial de Saúde é de que esta é "um estado de bem estar físico, psíquico e social", quer dizer, quase o mesmo que "felicidade". Nesse sentido, quem está de bem com a vida tende a atrair, naturalmente, o amor...

      Sobre essa última teoria, ela é tão verdadeira quanto o seu inverso, pois já é sabido há muito tempo em Medicina que a saúde está muito relacionada às questões sentimentais, desde a auto-estima até a qualidade das relações humanas em todos os níveis - entre casais, famílias e no trabalho. Todos os tipos de doenças sofrem alguma influência das questões amorosas porque, afinal, o afeto influencia o  sistema imunológico. E até no dinheiro o afeto influi, na medida em que a auto-estima aumenta o ânimo para o trabalho.  Enfim, o que um médico pode desejar para as pessoas no Novo Ano que se inicia é que elas cuidem da sua saúde, sim, e das suas finanças, sempre conscientes que quanto melhor souberem lidar com as questões do amor, melhor andarão suas outras questões também.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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